Tuesday, December 8, 2009

Finalmente em Livro

Lançado no dia 11 Dezembro de 2009 na livraria Bertrand do CCB.

Sinopse:

"A pergunta era simples "Queres vir dar a volta ao mundo comigo?".
A resposta complexa.

Em cima da mesa estava um emprego estável, uma vida organizada, um percurso mais que previsível, e em simultâneo uma vontade de questionar, de pôr em causa, de chegar mais longe... a resposta foi sim!

De regresso, 360º volvidos, Rita traz na bagagem os relatos de um ano de viagem aos recantos mais improváveis deste mundo, realtos de uma clareza sibtil, que trazem ao nosso encontro os cheiros, as chuvas, o calor, os risos e as gentes com quem se foi cruzando.

Da Índia à Ilha da Pascoa, passando pelo Laos, Vietneme, China, Nova Zelândia e outros mais, encontramos nestas páginas pequenos paralelos com o nosso mundo, erguem-se perguntas, surgem ideias, equacionam-se hipóteses... E diante dos nossos olhos vimos surgir novas coordenadas de um novo mapa mundo interior, que nos interpela e nos faz querer fazer as malas e partir também ao encontro de nós próprios!"

Monday, August 24, 2009

Maravilhas de Portugal II

Só depois de lá estar me apercebo da saudade que aquela praia me fazia sentir faz tempo. Pode tudo mudar, pode tudo evoluir, pode até tornar-se impessoal, mas o que se lá viveu não se esquece, e a maravilha da natureza continua a ditar o que sempre proferi daquele lugar. Mais uma beleza natural aqui tão perto, ao nosso lado. A memória do passado emerge cada vez que a visito. A recordação imortaliza a vista. Protege-a de qualquer aberração edificada a tentar amachucar a envolvente. Essa paisagem, para mim, será sempre a que trago comigo. Aquela que criei com o que vivi e com o que vivo. Volto a ser influenciada pelas reflexões de Ortega, que mais uma vez me inspira confirmando nas suas palavras as ideias alojadas em mim há tanto.

O areal selvagem ainda longe da mão urbana é culpado da minha conservada convicção. O progresso visita aquela vida piscatória, como qualquer outra que tem no turismo muito do sustento, mas deixa que ela se mantenha o nosso refúgio de férias como desde o primeiro ano, ainda antes de ter capacidade de materializar o sentimento fincado até hoje.
Nem eventual longo caminho nos inibe de querer sair para lá, longe é onde não se quer ir. As alternativas de rota são várias, quebrando a monotonia da viagem que ás vezes me invade só por culpa do meu imaginário criador de imagens irreais e manipuladoras de vontades. Desta vez, fugindo a Foros de Pouca Farinha, evitando Vila Franca do Rosário ou Ribeira da Azenha, apanho a estrada de Gasparões. Quantos mais lugares nos esconde o mapa? São inúmeras as aldeias, vilas, aglomerados de casas que vivem em tom de urbe, que nos ditam a certeza do caminho certo, adivinhando o tempo para a chegada. É ao passar o café Rita, depois daquele redondel que se mostra estanque, mantido há anos igual, orientando para diferentes zonas do sudoeste alentejano, que sei que a chegada não tarda. A entrada da vila, cada vez é mais antes de chegar, torna a tabuleta que indica 1 Km obsoleta, mas continua a criar o frio impaciente na barriga que acelera o pulsar vertiginosamente. Já não aguento a ânsia… essa tabuleta peca por defeito em relação à verdadeira distância para chegar a casa, aquela longe do centro urbano, de onde o descanso e o repouso não saem e nos esperam sempre de braços abertos.

Arrisco dizer que melhor ócio do que aquele é difícil. Ali, naquela paz ao som da natureza em bruto, o mar grita-nos a intensidade da sua raiva, ou sem se fazer ouvir mostra-se o mais calmo. A luz de fim de tarde rouba o tempo, faz crer que estou parada no curso das horas. Nada se move, nada acontece, a calmaria ouve-se e desfruta-se.

Ainda que num refúgio longe do que nos faz andar, do que nos move, a partilha do espaço com outros habituais, do lugar amantes fiéis como eu, torna-o mais encantador. Não podemos eremitar e mantermo-nos felizes. A sociabilidade do ser é necessária à sua ventura. O individualismo provoca frio, petrifica o sentimento. A vida não nos foi dada para o isolamento. Ali, naquele lugar, de nome que mente, de gentes sãs, de férias e descanso, hei de continuar a querer ir. Ali, àquele lugarzinho de Portugal, que será sempre para mim lugarzinho, hei de querer voltar incessantemente. Onde quem está me recebe com vontade, onde quando não vou me estranham, onde haverá sempre o melhor ócio.
Princesa do Alentejo, até logo.

Sunday, July 5, 2009

Maravilhas de Portugal

Viajar é talvez uma das melhores formas de descansar da vida que a urbe tanto nos cansa. E qualquer que seja a forma, está no seu conteúdo a verdadeira viagem.
Pela tranquilidade e alienação total que proporciona, viajar no barco do avô sempre foi um dos maiores privilégios que tive. No mar, a terra é vista como um cenário animado, fazendo-me imaginar onde colocar cada pessoa, cada casa, cada experiência. Faz levantar o voo da imaginação, e deixa-me brincar com as peças, montando a cidade ideal e tão real como o imaginário o deixa ser.

Largando Lisboa rumando ao sul, deixa-se que o vento controle a velocidade e a rota, e navegamos durante dias até àquele que poderia ser considerado o mais belo paraíso luso para o descanso. Aquela que pode ser uma das mais belas praias de sempre. Ou um dos sítios que se pode classificar como um dos melhores destinos para esquecer a agitada rotina que nos atinge… Dobrando o Espichel, depois São Vicente, logo a ponta da piedade, e por fim Santa Maria, alinhamos o farol e o marco geodésico pelo través e aproamos à entrada do canal para a Ria Formosa. O vento dá-nos a tranquilidade e o silêncio do motor desligado, o sol consola-nos na manhã quente algarvia e leva-nos até à primeira bóia balizadora dos fundos permitidos.

Do bugio a São Vicente, para chegar a Lagos, precisámos de 2 dias. Avarias comuns, que mostram os ossos deste ofício ditaram as horas de saída. Foram duas manhãs perdidas em reparos e arranjos. Mas daqui íamos seguros que solidamente e sem que imprevistos ou traições do motor nos mudassem alguns planos para chegar ao mais ansiado destino. No diário de bordo ficou registado que em Sines, a primeira paragem, entrámos já passava das dez da noite. Para primeira atracagem desta tripulação, que velejava pela primeira vez junta, tudo correu bastante bem, não fossem as indicações do comandante as melhores, como nos habituara desde sempre.

Ao largo do último cabo que deixa a costa oeste para dar lugar à do sul, as escarpas dançam ao som das mais variadas cores e feitios. Procuramos pelo binóculo reconhecer em terra construções familiares, adivinhando estradas, vilas e lugares, onde sabemos já ter estado. A cada identificação uma vitória, uma peça encaixada na construção do mundo ideal. Do Portugal que gostamos e queremos. Do mar as vistas são as mais frágeis e as mais manejáveis. Dão-nos a sensação de uma supremacia ingénua e delicada, como que um domínio sobrenatural capaz de criar a perfeição pelo poder daquela imaginação.

Ainda o sol não estava a pique já nós estávamos fundeados na tranquila baía da ria, em frente à culatra. Essa tal ilha que, para mim, podia ocupar o primeiro lugar no ranking das melhores escapadelas lusas. Ali podíamos ficar dias e dias, sem qualquer urgência ou necessidade de civilização. Mas ficámos dois: o da chegada e o da partida. Não fossem os imprevistos técnicos que qualquer oficio está sujeito, estivemos naquele paraíso menos tempo que desejaríamos. A paz que pairava na paisagem ouvia-se como o cantar embalador dos sonos de criança. A praia, do outro lado da ilha, na preia-mar, oferecia-nos uma vista da mais bela natureza, desfocando qualquer sinal de construção humana, que pudesse estragar a fotografia. As cores que nos deu o sol no seu momento de recolha ficam além de qualquer tentativa de representação. Saem da imaginação, vendo a sua existência menos provável que o raio verde, que ainda se mostrou tão efémero como o nosso piscar de olhos.

Como poderei eu ter visto mundo antes de conhecer os paraísos que a minha própria terra oferece…? Mais reitero que aqui existe o que há de melhor no mundo.
Usando as ideias de Ortega e Gasset, ouso dizer que a paisagem é o meio, e cada um de nós vê a sua paisagem. Mas aquela paisagem que ali deslumbrávamos disse-se unanimemente magnífica, fossem quais fossem os olhos que a observavam. Entre todos concordámos a magnitude daquele lugar. E os meus olhos viam e sentiam a tranquilidade e o descanso de uma vida fora da vida, montada pelos sonhos, real como o sentimento do momento.
Obrigada Avô.
Até logo.

Thursday, February 21, 2008

Cidade Maravilhosa!

Os sentimentos andam a uma velocidade muito superior à capacidade de os exprimir, escrita ou oralmente. Nem a riqueza da língua portuguesa, que nos permite contar e encantar com floreados e ginásticas linguísticas, atenua a essa amplitude de velocidade… Difícil é transpor para o papel o que se viu, viveu, sentiu, da forma como se viu, viveu, sentiu… Mas a vontade da partilha ultrapassa a inércia e transforma a incapacidade de expressão em sensações escritas.

O patriotismo conhecido deste povo é vivido a cada passo. A paixão de ser brasileiro, de ser carioca, de viver no Rio, encontra-se em cada rua, em cada táxi, em cada loja. A discrepância social evidenciada a cada esquina mostra-nos a verdadeira vida desta cidade. As muitas favelas implantadas nos morros misturam-se com os luxuosos prédios de segurança redobrada, esbatendo a mescla de estratos sociais numa una forma de ser.

A chegada ao Rio de Janeiro foi, como tantas outras chegadas, demorada, muito demorada. Deixámos Puerto Iguaçu com a alegria de estar cada vez mais perto de casa, e com uma imensa vontade de finalizar esta longa jornada na cidade maravilhosa. No entanto um raio de tristeza conseguiu atingir-nos. A despedida da Lizze foi dura. Com ela tínhamos partilhado tanto desta nossa aventura, com ela vimos, vivemos, sentimos… A certeza de nos voltarmos a ver um dia, não tão longe como outros que nos passaram pela viagem, ficou marcada naquele “até logo” quando a vimos partir no seu autocarro com um destino diferente do nosso.

No Rio íamos ao encontro de conhecidos portugueses que, por diferentes razões moram nesta cidade. Este encontro com os meus conterrâneos criou-me um conflito de sentimentos. Deixou-me saudosa de casa aumentando a minha ânsia de chegar, e na barriga fez aquele pequeno remoinho que desassossega e atormenta. Sem perceber bem porquê sentia medo, ou nostalgia do que começava a acabar. Estava a perceber que chegáramos ao fim. A felicidade de uma realização que sentia ter sido bem sucedida, e a tristeza da consciencialização do terminus da mesma realização pareciam pares de lágrimas a descer na mesma velocidade e proporção.

Mas a recepção lusa no país do Samba foi a melhor. Não havia quem não nos desse o seu tempo. Intercâmbios de estudantes e o consulado português foram a nossa casa, os nossos anfitriões. No momento da chegada, o calor era muito e com uma força que desarmava, a cidade era nova e desconhecida, a procura dos amigos tardava por acerto de pormenores de futuro, o trânsito era denso e confuso, a vida corria na banal e agitada rotina urbana… Há mais de todas as horas que fazem um dia que estava em viagem, já uma cama me chamava há que tempos… só ela me podia salvar daquele esgotante e aniquilador cansaço. Mas finalmente encontrámos os prometidos Amigos o que deixou o meu cansaço descansar pelo descanso que se adivinhava para breve. Mesmo tardando o breve, continuava a euforia da chegada à cidade maravilhosa. Euforia que me trazia rasgos de amnésia sobre a tal fadiga extrema, e a hospitalidade desde o primeiro segundo daqueles já donos da cidade encantou-me. Começava a realizar que estava no Rio de Janeiro, aquela cidade que há tanto ansiava conhecer.

Foi uma sensação estranha e confortável ao mesmo tempo. Tudo me parecia familiar fazendo-me sentir que já aqui estivera antes. Era a realidade mais colada ao imaginário que alguma vez eu tinha presenciado. Era tudo tal e qual como no meu inventado. Ver tudo aquilo ao vivo encheu-me a alma… como pode uma não surpresa surpreender tanto?! Mas naquela envolvente conhecida do meu imaginário não havia o cheiro, o ar, a cor, o ambiente… o despertar de todos os sentidos fez-me vibrar, apaixonar-me. Tudo o que poderia ter ouvido falar desta cidade ficara aquém do que a realidade me mostrava. Não há praia urbana mais bonita… Deambulando pelo calçadão não me cansava de observar o rodeio… não havia sentido que não despertasse e não fosse usado a todo o seu potencial.

Depois de todos os lugares por onde andámos, foi aqui que chegou o medo ou receio de andar na rua… Só aqui me senti ameaçada ou apreensiva com o badalado perigo da cidade do Rio. Mas não foi uma insegurança espontânea. Foi uma apreensão provocada pelos imensos e constantes avisos sobre a metrópole perigosa. “Não exibas nada de valor”. “Esconde a carteira e leva o dinheiro separado em vários sítios”. “Não resistas a qualquer tentativa de assalto”. O sobreaviso despoletou em mim o medo. A ignorância torna-nos bravos deixando-nos enfrentar muita coisa, mas às vezes pode nos deixar demasiado à vontade. Os avisos são bons. Aqui, no Rio, a minha bravura veio com o tempo. Num princípio, quando andando sozinha na rua, no autocarro, à beira mar, na praia, tudo o que se dirigisse a mim era ameaçador, mas com o passar do tempo, com a libertação da preocupação, tomam-se todos como normais transeuntes de uma normal cidade. Volta-se a desfrutar do encanto daquela luz, daquela vida alegre, daquele movimento contagiante, volta-se a querer fazer parte dele, deambulando como carioca puro, parando na lanchonete para um chope, atravessando a rua ocupada de carros para estender a toalha na praia e mergulhar naquele azul imenso que me faz lembrar o desaguar de uma metrópole cansada no seu leito de ócio.

A estada no Rio foi curta. Foram 9 dias que souberam a pouco. A chuva que nos recebeu durante os primeiros 3 dias tomou as culpas, claro. Impediu-nos de viver a cidade como merecia. Mas a hospitalidade que me recebeu no consulado português atenuou com força a indesejável chuva, fazendo daquela tarde uma das melhores da estadia no Rio. A ver o dilúvio cair no largo verde que saía da varanda da casa, abraçadas pela boa conversa, não apetecia que o dia acabasse… Nem a favela Dona Marta, aquela que se vê da residência consular, de onde podem saltar tiros perdidos em dias de mais alvoroço, nos tirava a vontade de ali estar.

Foram poucas as visitas culturais sobre a cidade. Foram alguns os sítios que apesar da vontade, ficaram por visitar… Na Lapa, esse bairro típico do Rio profundo, é onde moram as irmãs da madre Teresa de Calcutá. Acompanhando uma das habituais visitas da consulesa, pude visitar o trabalho destas irmãs na cidade do Rio, constatando mais uma vez a uniformidade mundial desta ordem do sari branco.

Mas o Cristo redentor, premiado com o título de maravilha do mundo pouco antes de lá chegarmos, não pôde deixar de ser visto! Dali se verifica a grandiosidade desta cidade… dali se contempla o cheiro, o ar, a cor, o ambiente, únicos que se vive nas ruas da mais bela cidade do mundo. Dali se percebe porquê o cognome – a cidade Maravilhosa!

Até logo.

Tuesday, January 15, 2008

O rio Iguaçu

A nascente mais viva e mais caudalosa do mundo será a do rio Iguaçu, a força com que ele cai a pique pela garganta do diabo faz imaginar que toda a água que existe no mundo está ali. Não é possível tanta água junta ao mesmo tempo... O seu enorme caudal, provocando constantes problemas de cheias nas povoações das suas margens mostra a força deste leito, a sua bravura… Até o seu curso normal foi alterado pelo homem fazendo criar o ponto zero deste rio numa zona onde a subida das águas não devastasse tanto.

O rio Iguaçu nasce da junção de dois rios brasileiros, o Iraí e o Atuba, e vem desaguar num canto de fronteiras entre Argentina, Brasil e Paraguai, no Rio Paraná na povoação brasileira de Foz do Iguaçu. Chega ao canto, parecendo não ter para onde ir, cai em queda livre por penhascos gigantescos, continuando a correr com a força de um rápido obrigando o barco “todo o terreno” a usar de toda a sua potência na “tracção às 4 rodas” para o vencer. Lutando contra a corrente, o barco cheio de turistas sentadinhos e alinhados, de colete vestido, aproxima-se o mais que pode do fim da imensa queda de água que os encharca num segundo. Como não podia deixar de ser, também vestimos o colete para partilharmos da mais impressionante aproximação à base das cataratas... eu não vi nada, pois a água não deixou, mas ficámos bem molhadinhas.

O destino escolhido para deslumbrar esta obra-prima da natureza, património da humanidade, foi a cidade de Puerto Iguaçu, uma pacata e tranquila povoação no norte argentino que alberga quem quer vir ver os encantos das quedas de água. Por (in)disponibilidade de autocarros ficámos 3 dias nesta cidade. Vínhamos da agitada vida de Buenos Aires e ansiávamos descanso, tranquilidade e natureza. A viagem de mais do que as suportáveis horas de camioneta deixou-nos às 3 derreadas, e a procura de um bom sitio para ficar era mais urgente que nunca. Sucumbindo ao cansaço fomos com o primeiro assédio que nos interceptou no terminal de autocarros. Descansar era a prioridade, mas tratar dos próximos passos era necessário. Então, antes que a fraqueza nos atingisse, saímos em busca dos planos futuros – marcar a visita às cataratas e decidir a ida para o Rio de Janeiro, nosso próximo e último destino. Feitas as agendas era o dia seguinte o dia de visita aos maiores saltos, em volume, de água do planeta.

A ida para casa estava cada vez mais perto. A vontade de parar já me tinha abordado várias vezes, camuflando ou mesmo quase abafando a vontade de continuar a procurar os melhores tours para rondar as tão ansiadas cataratas. Mas era ali que estávamos, era aquilo que tínhamos escolhido e querido ver. E queríamos de facto estar ali. Fazendo a razão prevalecer sobre uma emoção criada por cansaço e saudade, fazendo-as mudar de posições, mal podia esperar pelo dia seguinte. Eu já só pensava no que poderiam ser essas enormes quedas de água que segundo a lenda foram criadas pela fúria do pai da princesa índia Naipí que ao vê-la fugir com um índio numa canoa pelo rio abaixo, abre as enormes fendas no curso do leito Iguaçu fazendo-os cair pelo abismo e transformando o índio numa palmeira e a princesa numa pedra junto da queda de água, de maneira a que os dois nunca se tocassem, apenas se vissem…

Muitas são as formas de visitar estas enormes cataratas. As diferentes perspectivas têm diferentes nacionalidades. A argentina foi a nossa escolhida. Passámos um dia inteiro a deambular pelos imensos pontos de vista da paisagem. Aquela aproximação de barco ao sopé da enorme cascata não me permitiu abrir os olhos nem quase respirar, deixando-me apenas uma sensação… sem imagem. Mas entrando pelos caminhos a dentro a pé, o espanto aparecia a cada ponto de vista. Quando já parecia que tudo estava visto, mais uma imensa linha de cataratas e cataratas seguidas surgia por entre a densa vegetação local. O meu queixo caía como a força da água, a beleza da paisagem deixava-me perplexa. Que imponência!


Foram 3 bons dias na povoação de Puerto Iguaçu. A visita às quedas de água deixou-nos espaço para a vontade de não fazer nenhum até chegar a hora de partir outra vez. Passeios e banhos no rio perto do hotel souberam a descanso ansiado e merecido. Ainda convencidas que merecíamos sempre uma boa distracção e convívio, deixámo-nos ir experimentar mais um belo repasto argentino na companhia do seu conterrâneo vinho. A companhia da Lizze deu-nos mais ânimo ainda. Com mais uma pitada de insistência vinha connosco para o Rio, mas a vida continua, os caminhos eram outros e a separação era inevitável. Dali sabemos que levamos uma amizade, com a certeza de a vermos em Portugal um dia (tal não terá sido a nossa tão eficaz publicidade ao pacato e maravilhoso país da cauda da Europa…).

Até logo!

Tuesday, December 18, 2007

Na capital argentina


Sentada numa qualquer esplanada na esquina de uma pedonal com uma passadeira agitada de uma rua com trânsito, esperava que Lizze viesse lá de dentro do café. Em frente um quiosque a vender flores e outro ao lado de jornais, revistas e cigarros. Na minha mesa, poisada na quase calçada desenhando entre preto e branco figuras diversas tapadas por pombos que procuram migalhas ou fogem da gente que passa, um saudoso expresso curto e quente bem tirado. O barulho da cidade acordada, num desinquieto e banal dia de uma normal semana ocupada, é acalmado com o Frank Sinatra do saxofone de mais um habitual animador de rua em busca de uns trocos. As pessoas que cruzam aquela esquina, correm na azáfama urbana declarando visivelmente o estilo óbvio de militantes da sociedade moderna e misturam-se com flagrantes turistas de todas as partes que passeiam sem ou com destino numa cidade esplendorosamente cheia de vida, movimento e encanto, que se mostra tão acolhedora...
Por momentos senti que tudo isto acontecia em Lisboa. O cenário era familiar, mais que conhecido. Lizze chegou. Acabámos o nosso café e seguimos em busca do nosso destino pela pedonal... ela procurava um livro, e eu tentava saciar o meu já habitual vicio de postais...

Encontrei na capital argentina uma cidade charmosa, cheia de encantos que nos deslumbram e nos enfeitiçam. Atravessada pela maior e mais importante Avenida 9 de Julho, alusiva ao dia da independência do país no ano de 1816 e com o enorme Obelisco a meio, a cidade mostra o seu plano urbanístico evidente, mas que a mim me faz perder o rumo ao avistar esse altíssimo pilar de mármore tributo aos 400 anos da cidade em 1936, de tantos pontos de vista diferentes. As ruas largas ladeadas de árvores que escondem grandes varandas de pedra de prédios antigos de bom aspecto fazem lembrar um pouco Madrid. Grande e ampla, sem se dar conta, esta cidade deixa-se pisar facilmente. Andar a pé é muito cómodo. Evitando o metro que esconde debaixo de terra os encantos e recantos de uma cidade quase europeia, ou os autocarros que demoram por seguirem o sentido único da maior parte das ruas e avenidas (sentido esse que acabou por ser a minha tábua de salvação para a orientação), deslocávamo-nos com o próprio passo sem queixumes ou dificuldade... degustando a rotina da cidade.

Chegámos numa terça-feira ao aeroporto dos voos domésticos de Buenos Aires. A euforia da chegada não nos calava. Para mim era a primeira vez, mas a Carmo conhecia os encantos da cidade e o seu entusiasmo contagiou-me desde logo. Mal podia esperar para ver o que desde o levantar voo em El Calafate ouvia... Procurámos o poiso ideal seguindo a sugestão do nosso melhor amigo guia, e aproveitámos a vida da grande cidade de Buenos Aires desde logo. Sabíamos que amigos de paragens de outrora coincidiam connosco na cidade. Uns de um lado, outros de outro, vindos de La Paz ou da Navimag, tínhamos animação de sobra. Juntámos hostes e formámos um grupo que viveu a cidade mais dias do que os que preenchiam os nossos planos inicias.
Bons Ares é um nome que veste melhor que qualquer outro esta capital cultural da América do Sul. A sua vida boémia, cultural e artística dá-lhe um encanto único. De bairro em bairro, percorrendo e vivendo o que cada qual mais tem para mostrar, vasculhávamos pelos cantos os seus encantos. Felizes coincidências, ou fortunas do acaso, levaram-nos a lugares menos típicos frequentados pelas gentes locias. Para um salão de baile onde às quartas feiras se pratica e ensina o tango ao som da banda residente subimos curiosos atrás da música que invadia a rua. Num bar no bairro de San Telmo, o boémio e mais antigo da cidade, um concerto instrumental deliciou-nos e prendeu-nos numa noite que prometêramos entre nós ser calma. Indo atrás do diz-que-disse-que-é-bom, fomos assistir a uma performance de batuques que entram pelo fim de tarde a dentro das segundas feiras dos jovens alternativos da cidade de Buenos Aires. Dentro ou fora da rota desenhada pelos guias, os lugares de convívio na cidade são mais que muitos. Seguindo e saindo do suposto, fomos visitando ao sabor da vontade e do entusiasmo.

Além dos imensos bares e cafés inundados de ofertas variadas de shows de tango, ou simples bons ambientes de tertúlias, também de dia os encantos da cidade do design argentino mostram muito de si...

Em La Boca vive-se intensamente os ópios do povo argentino. Tango e Futebol. El Caminito, zona portuária de casas multicoloridas, pintadas com as sobras das tintas que os barcos já não queriam, mostra hoje um jogo de cores estudadas para manter a antiga tradição e encher o olho do turista, não deixando de encantar. Ao almoço come-se o famoso assado, que à boa maneira argentina demora horas pois o fogo não toca na carne que grelha, e vê-se dançar o verdadeiro tango.

Também não pudemos escapar ao nosso pezinho de dança com o profissional. Maravilhou-me assistir àquele tango de rua, que mais do que pura diversão dos que o praticam, que se vê a olho nu nos seus próprios olhos, existe para recolher trocos no chapéu. Mas que assim seja, não deixa de encantar tantos e mais turistas como eu, que deixam cair as moedas para que não pare nunca uma animação tão típica, que traz tantos bons ares!

Ali em La Boca, onde não se dança o Tango, joga-se o futebol. Em dia do último jogo da liga nacional argentina fomos à La Bombonera, onde em casa e já sem possibilidade de ascensão ao titulo o Boca Júnior defrontava com a mesma paixão de quando luta pela taça, Lanus, que tinha naquele jogo todo o seu futuro. Mais um espectáculo do povo argentino. Mesmo sem ter nada a perder os jogadores da equipa de Diego Maradona, que não perde um jogo em La Boca para apoiar o seu clube, jogaram de alma e coração da mesma forma que a sua claque gritava e cantava do fundo dos pulmões o imenso reportório de incentivo à equipa, sem nunca parar ou desanimar. Foi dos jogos de futebol mais emocionantes que vivi! Gritei pelo Boca Júnior como se fosse o nosso Sporting, com aquela devoção sentida, acreditando na vitória até ao fim, na vitória de uma equipa unida que jamais desilude o seu adepto... A emoção do estádio fazia-o vibrar, fazia-me vibrar com eles.

Mais e outros bairros preenchem esta cidade. Cada qual com o seu próprio ícone. Na Recoleta, o bairro chique e turístico da cidade, mora o Robin dos bosques argentino - Evita Peron, odiada e amada na mesma medida, descansa no cemitério mais visitado do mundo, diria eu. Em Palermo na praça principal, ergue-se um mercado de rua e enche os cafés que o rodeiam. A casa rosada, morada do poder executivo argentino, dá para a Praça de Maio, a mais importante praça da cidade. Pelos seus museus, jardins e monumentos alusivos à atribulada história da mais europeia cidade da América do Sul, ocupam-se os dias sem cansar e a descansar. Ao desfrutar do que a cidade tem para oferecer, acabei por não encontrar a conhecida arrogância dos argentinos (a não ser nos condutores de autocarros, que parece que se esforçam para dificultar a vida a qualquer pessoa que se mostra mais perdida). Todas as pessoas se mostraram afáveis. Sempre e em qualquer situação, todo e qualquer transeunte nos ajuda mais do que lhe pedimos. O grande crash do peso argentino, que o fez cair em flexa, depois deste viver a par do Dólar americano, levou o país a um nível mais baixo do que estavam habituados. "Para vocês, europeus, vir a Argentina é fácil e é barato", diz-me um qualquer taxista com o seu misto de conformismo e descontentamento do sistema actual do seu país, mas contente por saber que tantos europeus continuam a vir, e gostam cada vez mais da sua tão rica cidade.

A saída de Buenos Aires estava difícil. A sua agitada vida gerava uma inércia para avançar em planos e programações de outros destinos. Mas a viagem continua, com ela queremos seguir... determinado o dia da partida, tínhamos ainda tempo para ocupar. O nosso autocarro era só ao principio da noite, havia ainda um dia inteiro pela frente. Apanhámos o comboio em direcção a Tigre. Bem fora do centro este bairro vive nas margens de canais do rio de la Plata, aquele que banha Buenos Aires. O centro está arranjadinho, bem parecido, acolhedor. Um mercado mostra os encantos artesanais argentinos, e os canais do rio deixam-nos passear de barco admirando e constatando como deve ser bom viver ali... que diferente que isto é da cidade que acabara de conhecer.

De volta ao centro, evitando as despedidas, que como sempre são a parte mais difícil da saída, seguimos para a mais confusa e ocupada estação de autocarros que vira até hoje, para seguirmos para Puerto Iguaçu. A Lizze vinha connosco... Ficou tão contente com a nossa proposta como nós com a sua aceitação! Iguaçu em 15 horas...

Até logo!