Thursday, November 22, 2007

Bolívia

Depois do lago Titicaca apanhámos mais um autocarro local que nos levaria à capital deste país cheio de ícones de o-mais-qualquer-coisa-do-mundo.

De La Paz a Potosí

Seguimos com o grupo de Israelitas que conhecêramos no barco à vinda da ilha do sol, para um hostal recomendado por outros israelitas já antes vindos a La Paz. Mais do que o óbvio castelhano, ali, na Calle Santa Cruz, em pleno centro da grande e confusa cidade, fala-se o Hebreu. Os dizeres informativos são nessa língua estranha, que mesmo sem qualquer hipótese de entendimento dos caracteres, a direcção contrária com que se lê não deixa margem a sentido possível. A nossa aparência de evidente indecifrável nacionalidade fez-nos passar por nacionais do país judeu, dando-nos o habitual desconto que os viajantes de Israel têm nos hotéis desta zona da cidade, e mais tarde reparo que em muitos outros sítios do continente sul americano. Na noite em que chegámos já havia programa combinado, o spot aconselhado era não mais que um bar perto da zona, onde a noite acontecia, tal como no bar do costume em casa... a noite de La Paz estava dominada pelos que falam o Hebreu.

No fim da escolaridade obrigatória, antes de qualquer outro passo, para os israelitas o que se segue é o serviço militar obrigatório. Depois de 3 árduos anos para os rapazes e 2 para as raparigas, quase 100% da camada jovem deste país parte por um período sabático merecido, antes de qualquer plano de estudo ou trabalho. São mais que muitos os Israelitas que se encontram no caminho. São mais que muitos os sinais de passagem de israelitas pelas várias cidades da América do Sul. Para nós, La Paz, foi uma visita ao mundo de Israel...

Encontrámos neste, um grupo simpático com quem partilhámos os dias de visitas e passeios, ou mesmo compras pela cidade, sem deixar de viver os encantos que aquelas noites israelitas, tão parecidas com as nossa portuguesas, nos deram.


Partindo com pena sozinhas, pois os planos deste divertido grupo que crescia a medida que encontravam mais conterrâneos, eram outros, seguimos para a cidade de Potosí. Chegámos quase antes do sol, a cidade estava ainda adormecida. O Cerro Rico, aquele que se avista de toda a cidade, ainda hoje dá prata e outros minerais aos seus habitantes, sendo esta a principal fonte de receitas daquela que um dia foi a cidade mais rica do império espanhol. Dos recursos mineiros vive esta cidade.

Reza a lenda que um dia um índio – Diego Huallpa, subira ao monte atrás do seu fugitivo lama. Encontrando-o finalmente no topo, já de noite, acende um fogueira para se aquecer e vê fios de prata escorrer pela ladeira abaixo. Desde então se começa a exploração deste cerro que afinal eram tão rico em prata, recebendo por isso o seu justo nome. A prata daquelas minas fez enriquecer a zona e o seu explorador espanhol. A cidade cresceu exponencialmente, os benefícios que a população recebia ao trabalhar nas minas monopolizou a oferta de trabalho, a cidade viveu à volta desta industria durante anos. Até que um dia, o valor da prata caiu, o governo deixou de apoiar os mineiros. Estes juntaram-se em cooperativas de exploração das minas de forma a poder manter a sustentabilidade do negócio, e hoje Potosí continua a viver das minas e de algum turismo em redor deste trabalho que tão pouca saúde dá aos seus trabalhadores. As visitas às minas são guiadas, muitas vezes por ex-mineiros. Vestimo-nos a rigor, capacete, botas e lanterna na cabeça, começamos pelo mercado dos mineiros, onde compramos consumíveis usuais do dia-a-dia de qualquer trabalhador deste duro oficio. O habitual são as folhas de coca, que mascadas ajudam a enganar a fome e anestesiam a ideia de que se está a metros e metros de profundidade durante todo o dia, sem ver a sua luz, sujeitos a substancias tóxicas libertadas pelos minerais extraídos do cerro, e a enormes diferenças de temperatura.


Mesmo em dia feriado, não tendo a quem dar o saco de folhas de coca, foi impressionante ver como pode ser este quotidiano vivido por homens e mesmo rapazes a partir de 15 anos dentro do imenso monte que um dia foi o mais rico de sempre.


Salar de Uyuni

Ainda antes do sol se por já estávamos noutro autocarro local em direcção a Uyuni, a cidade ponto de partida para a visita ao maior deserto de sal do mundo - O salar de Uyuni. Além de um terminal de autocarros, pouco mais tem esta cidade. Chegámos, dormimos, e no dia seguinte apanhámos então o jeep para percorrer por 3 dias o salar e tantas outras belezas além deste enorme chão do sal. Éramos 7 no nosso. Um simpático italiano a viver em Madrid, companheiro da anterior visita às minas de Potosí, 4 checos e nós as duas. Sem me aperceber bem o que poderia ser a paisagem de um deserto de sal fiquei desde o primeiro segundo abismada com o que via. Um branco a perder de vista riscando uma linha de horizonte jamais vista antes...

Além do nosso jeep havia mais outras tantas dezenas iguais ao nosso, por ser a única forma de visitar este deserto. Na imensidão do branco nunca me senti encurralada por milhões de turistas. Andávamos todos juntos pero no revueltos. Pelo caminho visitámos a fabrica dos tijolos de sal, um hotel construído com estes mesmos tijolos, e ainda a ilha do Pescador, a prova de que ali, a muitos quilómetros de distância de qualquer oceano que banho este continente, houve mar e nele, uma ilha, onde actualmente apenas vivem cactos. Hoje, nesta área de 12 mil quilómetros quadrados resta uma imensa e eterna camada de sal que sustenta as populações da zona. Nessa noite dormimos num outro Hotel de Sal, já fora do salar. As camas, as mesas, os bancos, as paredes eram com tijolos não de barro mas de sal. O chão era como a praia mas do branco mineral que tempera... Nem podia imaginar quão isolador é este produto. Nem frio nem som estão capazes de transpor estas paredes.

No dia seguinte partimos para mais paisagens inesperadas e imponentes. Fora do branco, já em deserto normal, seguimos em busca de flamingos das lagoas mais coloridas de sempre. A viagem naquele banco de trás do longo jeep não deixou nunca lugar para a monotonia. Da janela a imagem fazia prender a vista. As paragens para uma foto eram mais que muitas. Nunca parecia mais do mesmo, havia sempre um pormenor diferente, merecedor de foto, mais uma cor não vista antes, mais flamingos diferentes dos anteriores, ou num contexto diferente.

A mais impressionante lagoa foi a chamada colorida. Com a ajuda de minerais da zona, a água cobre-se de um vermelho arroxeado, um fuxia alaranjado, misturados com risca de azul, branco, verde, fazendo acabar a bateria e a memória da máquina. Os seus habitantes de perna alta tomam até um especial encanto. Mais flamingos, mas estes diferentes. Aqui fez falta a outra lente, aquela que permite chegar mais perto... embora nem mesmo essa poderá alguma vez mostrar o que viram os olhos. Nem a tecnologia digital dos dias de hoje poderá impressionar como a vista real daquela enorme e riscada lagoa me impressionou.

Na manhã seguinte foram os géisers e as águas termais o nosso destino. A alvorada foi bem cedo, antes das 5 estava eu outra vez naquele banco de trás do jeep, sem que o sono ou a geada me deixavam ver por onde íamos... O frio daquele amanhecer quase me impedia de manejar a máquina. Jactos de vapor com uma força incalculável saíam da terra como a água de bocas de incêndio activas. Depois das quentes águas termais, alcançando quase 36º, levar muitos a banhos, mesmo com 0º ou menos cá fora, tomámos o pequeno almoço. Eu sucumbi aos banhos... não me fosse fazer mal a diferença de temperaturas... Seguimos caminho para a Lagoa Verde e depois para o fim do tour. Uns seguiam de volta para Uyuni, outros, como nós, seguiam para o Chile, para a cidade de São Pedro de Atacama.

Muitas vezes achamos que queremos fugir aos tours turísticos por serem turísticos, mas muitas vezes é turístico exactamente porque vale a pena lá ir. Esta foi uma das viagens turísticas mais espectaculares que fiz.

Até logo!

5 comments:

Anonymous said...

Fartei-me de rir com o "não me fosse fazer mal a diferença de temperaturas..."
Para quem anda a dar à volta ao mundo esse deve ser o maior problema!...

Beijinhos da InêsF (galinha e leitora assídua!!)

Anonymous said...

Não encontraram o Miguel Girão? Ele esteve a fazer o mesmo tour, precisamente na mesma altura!!!
Finalmente consegui escrever...
Bjs,
Joana Vilela

MRA said...

ès tu na foto não és? é que o cabelo está comprido....
Maria RA

PS: recebemos um postal de Timor

Anonymous said...

Foi tambem das descrições a que mais gostei, que mais me apeteceu ir..
as fotos incriveis...
bjs
tconstança

não se constipe....

Lorena said...

"Muitas vezes achamos que queremos fugir aos tours turísticos por serem turísticos, mas muitas vezes é turístico exactamente porque vale a pena lá ir."

Exactamente!!!

As coisas só se designam turísticas porque são de um valor superior ao resto que as rodeia. Podendo esse valor ser classificado de inúmeras maneiras.

Só não nos peçam é para deixarmos de as visitar porque já estão muito badaladas ou demasiado comercializadas.

Sendo turístico ou não, esse tour (tal como o Navimag) é lembrado pela natureza e pela companhia, nunca pelo excesso de turistas, pois esse problema não existe.

Desculpa o desabafo mas tocaste num assunto que muito me importuna, nomeadamente a visão sobre o mesmo de Gonçalo Cadilhe.

Bjs