Thursday, September 20, 2007

Viajando para Santiago do Chile

Já sabia que este dia ia ser longo, maior do que qualquer outro, mas nunca imaginei que fosse tão longo. Acordei por volta das 8e30 da manhã. Arranjei tudo, fiz-me caracol e pus-me ao caminho. Mais uma partida, mais uma viagem para outro ponto do globo. Mas esta entusiasmava-me especialmente. Ia atravessar o Pacifico batendo no pólo e viver o mesmo dia duas vezes... tal como Júlio Verne imaginou um dia, antes de alguém ter pensado que isso seria possível, quando deu a vitória a Phileas Fogg na aposta da volta ao mundo em 80 dias. Sendo ou não tempo suficiente para dar essa volta, o que Verne queria mostrar, eu pude viver com esta viagem. Saindo em direcção a leste, regressando pelo oeste, ganha-se um dia na vida! Quando disse a alguém que estava entusiasmada com esta viagem por ir ganhar um dia, esse alguém retorquiu que quando eu voltasse voltava a perde-lo, só que eu não ia voltar... ia seguir! Ia andar para a frente mais depressa que o próprio tempo para um local que vive antes do lugar convencionado como o de partida, desafiando o curso das horas e posicionando-me no passado. Uau!

Como ia dizendo, fiz-me à estrada em busca do aerobus, esse suttle que nos leva ao aeroporto, com tempo suficiente para que tudo corresse bem. Dentro ao autocarro, para mostrar a alguém em que companhia ia voar, para saber a porta de entrada a escolher, reparo na hora do embarque. Era às 17e50 da tarde, e não às 13e05 como estava na minha cabeça desde há tempo vá se lá saber porquê. Quando cheguei ao aeroporto confirmei que de facto a hora do voo era mesmo essa e sentei-me calmamente algures a inventar de tudo para acelerar o andamento das horas. Este dia já de si era maior, e eu, com um parvo engano, ainda consegui criar condições para o viver ao minuto... Escrevi, vaguei pelo aeroporto, sentei-me na mala/casa a ler o guia da América do Sul, única leitura de momento, à espera que abrisse o check-in. Esperei pela hora de embarque... Subi a bordo, finalmente!
A viagem ameaçava ser longa e aborrecida. Eram 10 horas de voo e ainda faltavam algumas para ir dormir. Quando entro no avião e vejo que o meu lugar é a meio das cadeiras do meio irrito-me por me ter deixado sujeitar mais uma vez à escolha aleatório da máquina que não sabe que prefiro a janela. Sento-me a pedir desculpa pelo incómodo, com cara de que todos me devem e ninguém me paga sem razão nenhuma. Um olá alegre do austríaco loiro com uma cómica barbicha e um lenço ao pescoço, cumprimenta-me matando aquela cara feia e fazendo nascer de novo o sorriso. Do outro lado, um outro olá contagiante, desta vez australiano, sem qualquer vontade de sossego nas próximas horas voltou a fazer-me esquecer o inacessível e claustrofobico lugar que a insensível máquina me dera, e tornou a viagem mais animada ainda, sem sequer ter começado. Rapidamente esqueço a longa distância da janela e sinto a confortável lembrança que a escuridão da noite esconderá a eventual vista do pólo. Antes de ligarem os motores já os lugares do meio da fila 17 estavam em movimento. Fizemo-nos milionários atingindo com comunhão de conhecimentos, com a ajuda indispensável do quarto elemento neozelandês da animada fila, o topo máximo da escala do jogo desse magnifico ecrã que entretém os passageiros de viagens de longo curso, cansámos Lorena com intermináveis pedidos para encher o copo, partilhámos histórias de vida passada e futura, e eu ainda dormi um curto sono até ao pequeno almoço. Acabou por ser a parte do(s) dia(s) mais animada. Aterrando em Santiago eu era a única que não estava em trânsito. Despedimo-nos com as normais trocas de mails e um até um dia, por aí no mundo.

É estranha a sensação de estar a viver o mesmo momento outra vez. Sabendo do calendário, ao contrário do personagem de Júlio Verne, foi aqui que vivi a volta ao mundo. Não sabendo em que dia estava nada me fazia pensar nisto, sucumbia ao cansaço do normal jet-leg ou tentava contra ele. Fi-lo na mesma, lutei contra ele e vivi o dia mais longo...

Faço-me à cidade com calma e vagar, já que tenho tempo extra. Vou almoçar outra vez no mesmo dia, porque são outra vez horas de almoço! Encontro Santiago vazia como em dia de Natal onde tudo está reunido no calor do lar em família. As ruas estão frias e silenciosas, as escassas e aleatórias pessoas com que cruzo parecem ir para casa depois de uma saída rápida para comprar algo de desapareceu inesperadamente da despensa. Senti-me sozinha. Em dia de comemoração da independência do país, feriado que antecede o feriado do festival militar, obriga o governo Chileno a criar na segunda feira uma tolerância de ponto que esvazia a cidade a mais de metade para umas mini férias fora da metrópole. Até o famoso smog, aquela conhecida camada de poluição que categoriza Santiago no terceiro lugar do ranking das cidades mais poluídas do mundo, desapareceu durante estes dias...

Uma ida à embaixada portuguesa, que mesmo em dia de fiesta me recebe de braços abertos, e Amanda, uma americana a dar aulas de inglês no Chile, através de um programa de voluntariado, que conheci pela sua irmã em Timor, preencheram-me um pouco deste vazio e trouxeram-me a vontade de conhecer mais a cidade e arredores, desmantelando a solidão. Com Amanda tomei um café, muita conversa, e dei um passeio curto até à Praça das Armas, local por onde terá começado a construção desta cidade que exibe uma estatua do seu conquistador Pedro de Valdivia e outros edifícios do seu tempo misturados com a modernidade de agora. Vou desbravar mais desta capital chilena.

Até logo

Tuesday, September 18, 2007

Deixando os kiwis

Auckland foi o último ponto desta fabulosa estada na Nova Zelândia. Aqui esperava-me Tim, amigo de amigos em Portugal dos seus tempos de jogador de Rugby pela Agronomia e mais tarde pela selecção das quinas. Foi um anfitrião 5 estrelas, dedicou-me o fim de semana e incluiu-me nos seus vários programas desde de um babysitter sexta à noite até uma festa em casa de uma amiga de tributo aos 70´s com indumentária ao estilo Austin Powers! Tim e eu mantivemo-nos nos tempos actuais quanto ao que vestir, mas nem por isso fomos menos bem recebidos. Finda a festa, ou quase no fim, pois a hora esperada aproximava-se, fomos para um bar na zona, onde nos esperavam outros amigos para assistir ao ansiado jogo do desporto mais badalado e mediático desta zona, onde se defrontariam os melhores dos profissionais contra os melhores dos amadores, dizia-se por aqui. “Dizem que os jogadores de rugby em Portugal têm outras profissões, é verdade?” pergunta um miúdo kiwi com o ar mais incrédulo possível. É verdade! Portugal ia jogar contra os grandes All Blacks! O anfitrião dividia o seu coração entre as duas equipas nesse jogo de Sábado. Com uma T-shirt exibindo o escudo luso, com o cenário da cidade de Auckland por trás, Tim mostrou-se na primeira página do destacável de um semanário local cujo titulo dizia: “Portugal tem um Kiwi como fan”. As expectativas não falharam por muito, mas ainda assim não deixámos que os neozelandeses nos levassem a zero e batessem o seu próprio recorde, como alguns esperavam... Foi uma noite animada e divertida, onde um kiwi e eu catámos juntos “A Portuguesa”!

Auckland parecia ser uma cidade horrivelmente grande. As impressões que me davam os kiwis do sul eram unânimes. Vinha ouvindo dizer desde que chegara a Nova Zelândia que ai acabar a viagem na grande confusão, longe do que faz este país um paraíso. Das únicas zonas do país com auto-estradas, a maior cidade neozelandesa superou as expectativas criadas por outros, por culpa de Tim que me mostrou o melhor do melhor no centro e arredores da metrópole. A máquina ficou em casa. Nem o tempo nem a pressa me lembraram de a levar... Mas já na segunda feira, não deixei de subir à Sky-Tower para tentar apanhar um registo da vista da cidade que perdera no dia anterior de uma das colinas vulcânicas algures num centro. Mas ficou bastante aquém... Levo Auckland na memória e o país no coração...



Até logo.

Thursday, September 13, 2007

Um dia diferente

Quando o despertador tocou já eu estava à espera. Acordara antes dele. Será a idade? Seria sono a menos? Terá sido a ânsia de viver este dia que começara, por ser diferente? Qual fosse a razão ainda não eram 8h e eu já estava pronta para o mundo. Pela manhã gelada entrei à procura de um café forte e quente que completasse a genica e vontade de viver aquele dia. Saí atrás dos conselhos de Jeffrey sobre o que ver de interessante em Nelson. Até às 5 da tarde teria tempo para descobrir a cidade e viver o dia como me apetecesse, seguindo o instinto e o desejo a cada minuto. Sentia-me livre, não por estar sozinha, mas por estar bem, bem disposta, com um sorriso que cumprimentava toda a gente que o cruzava. Estava feliz. No ponto do globo mais longe possível do meu país, sentia uma proximidade de me fazer esquecer que estava nos antípodas.

Em Timor, Rebecca, quando soube que eu vinha a Nova Zelândia pôs-me em contacto com o seu irmão que vive em Nelson. Jeffrey, quando soube que eu ia passar perto da sua morada ofereceu-me estadia. Liguei-lhe durante o dia da viagem. A recepção foi a melhor, como quem esperava o meu telefonema há dias. Combinámos então encontrarmo-nos num desses cafés de uma cadeia americana espalhados pelo mundo às 5 da tarde do dia seguinte, dia 12 de Setembro.

A expectativa de pensar que não jantava sozinha neste dia ajudou a pregar o tal sorriso cumprimentador... Mas nada me podia abalar naquele dia. Podia passa-lo sentada num café colorido e simpático do Queens Garden a tirar fotografias a objectos, ou a tentar aparecer na minha própria câmara, que não me importava... podia perder horas a procurar como vai acabar a historio da Inés Suárez... podia partir a pé até à catedral que dá a Nelson o título de cidade... podia devanear pelas ruas de prédios às cores sem rumo... podia tudo... podia o que quisesse.
Neste dia do ano, que para uns é indiferente, para outros é só mais um, mas que para mim é especial, sinto-me capaz de abraçar o mundo distribuindo alegria, esteja onde estiver. O desafio de o passar sozinha numa terra desconhecida longe de quem mais pode partilhar essa alegria comigo era um obstáculo que antevira e por isso estava bem preparada para o atacar de frente, disposta a espalhar essa mesma alegria pelo desconhecido! Talvez fora esse o meu verdadeiro despertador nesse dia.

Um bocado antes das 5h, prezando a pontualidade, principalmente por quem não conhecia, lá estava eu a tomar café na companhia do fiel amigo livro, esperando impacientemente que o tempo andasse até à hora marada. Jeffrey chegou! Antes de um olá ouvi uns parabéns! Que simpatia contagiante aquela! O meu sorriso aumentou saindo da cara. Eu estava contente por falar com alguém que rapidamente passou a conhecido e ele estava contente por partilhar este dia comigo... Com uma simplicidade genuína incluí-me no jantar que programara antes de saber da minha chegada, como se eu fizesse parte do grupo desde do inicio. A cada pessoa que chegava apresentava-me, com orgulho, como sua hóspede! Mais em casa era impossível sentir-me. Mais do que o conforto de um quarto enorme e quente só para mim, uma cama feita, numa quinta nos arredores de Nelson onde o único som é o da natureza, assim como a vista, foi a hospitalidade familiar e autêntica com que me recebeu o casal Jeffrey e Lynne!

Foi o dia 12 de Setembro mais comprido da minha vida. A presença constante dos meus, através das variadas tecnologias de comunicação preencheu mais do que 24 horas... O contacto constante com casa preencheu este dia melhor que nunca, não fosse esse contacto o principal culpado por tornar este dia tão especial.
Obrigada! :)

Até sempre

Tuesday, September 11, 2007

New Sealand

Foi como lhe chamou o capitão holandês Abel Tasman quando tentou colonizar esta terra 2 séculos antes dos ingleses se estabelecerem. A força e vontade de defender o que era seu fez com que o povo Maori não se deixasse conquistar facilmente.

Dizem que nestes 268 Kms2 quadrados se podem fazer 10 tipos de férias diferentes. As imensas e diversas paisagens que compõem estas duas ilhas são variadíssimos retalhos de uma enorme manta de ofertas.
12 dias foi o tempo destinado à terra dos Kiwis, esses pássaros que não voam e que têm um bico do tamanho de metade do seu próprio comprimento. Vê-los também é mentira, há muitos e muitos espelhados por aí, mas para os ver vamos ao Zoo ou a algum outro parque natural que os mantenha e alimente... Dizem as más, ou verdadeiras línguas. Não é de todo tempo suficiente para desbravar as paisagens de filme da Nova Zelândia. As escassas estradas que servem perfeitamente para satisfazer as necessidades dos apenas 4,1 milhões de habitantes que ocupam o território, limitam as possibilidades de rotas, mas deslumbram com vistas que nos fazem indiferentes às voltas necessárias para atingir o destino fixado. Qualquer condutor de qualquer autocarro está munido de um microfone que usa para ir informando os passageiros sobre o lado de fora da janela. Sempre que se justifique gastam-se 5 ou 10 minutos num ponto de vista a meio da estrada para uma fotografia que pensava eu só haver em postais. Ao longo das estradas, as árvores que o inverno despiu deixam transparecer enormes lagos com água tão límpida que nem a imensa profundidade lhes esconde o fundo.


Desembarquei em Christchurch, uma cidadezinha pacata, silenciosa e arrumada, dava gosto só de passear pelas ruas. As pessoas simpáticas, atenciosas, parece todas terem tempo para nós. Desde logo senti, confirmando ao longo dos dias, que neste país parece que há tempo e espaço para toda a gente. Somos chamados pelo nome próprio, até pelo condutor do autocarro. Acolhem-nos individualemente, não nos sentimos mais um, mas únicos. Mas aqui não iria ficar muito tempo. Racionalizando os dias para visitar tudo o que pensara depois de estudar o guia quase a fundo, era Queenstown a próxima vontade. Parti no dia seguinte de manhã, chegando à cidade radical, onde nasceu o Bunging Jumping, ao principio da tarde. Uma cidade que se desenvolve na margem de enorme lago, rodeada de montanhas coroadas com neve criando uma vista única. Depois do pequeno passeio de reconhecimento deliciei-me com a subida ao topo na chamada gondula, que me ofereceu uma vista muito melhor da que eu já pensava ter sido única.


A ideia desta cidade trazia no bolso a ida a um dos pontos míticos do parque natural Fiorland, no sudoeste da ilha do sul – Milford sound. Uma enorme língua do mar da Tasmânia entra pela terra adentro rasgando as rijas e altas montanhas até não poder mais. Embora o bom tempo não tivesse vindo connosco no enorme barco que faz o percurso até ao abrir do grande mar, a viagem valeu a pena. Deslumbrando as altíssimas quedas de água furámos o curso do leito até ao mar regressando ao porto debaixo da uma chuva que desde daí não nos deixou...

Aquele cor de rosa do céu ao amanhecer reflectido no lago enaltecia o branco dos cumes que envolviam a cidade. Sair de Queenstown estava difícil. As cores eram de quadro de artista famoso. Deixei a cidade digna de uma rainha viver fazendo por isso jus ao nome, seguindo para norte, acompanhando a costa oeste até Fox Glacier, o destino que se seguia. Estava no país há 2 dias partindo para o terceiro sitio. Fechando consecutivamente o livro que me acompanha nas viagens para ouvir histórias de lugares que o motorista ia contado, rapidamente, sem dar por isso cheguei à cidadezinha de beira de estrada. Pouco passava das 3 da tarde. Procurei poiso e vaguei por aí. Aqui a atracção era um passeio pelos glaciares. Inscrevera-me no programa de metade de dia, escolhendo a parte da manhã pela alvorada não ser demasiado cedo. Foi uma sorte. A manhã mostrou-se limpa, céu azul e sol radioso, ao contrário da tarde que de repente foi invadida por um conjunto de nuvens que cobriram as montanhas.


Vão nos levar a um pedaço de gelo, com 2 ou 3 metros quadrados e vamos poder dizer que andámos em glaciares, pensara eu temendo o que me esperava, longe de perceber ao que ia. Mas algo fizera com que eu comprasse a viagem, confiara cegamente nos kiwis, claro. Boa confiança, ou não seria este um país que valoriza e bem o seu turismo. Não me senti a explorar os Himalais ou a escalar o Monte branco, mas andei num dos 2 únicos glaciares da terra a menos de 400m de altura, a par com outro na patagónia argentina. Primeiro percorremos um caminho ao longo da encosta do monte, seguindo à risca as indicações da guia que às vezes se adiantava para garantir que estávamos fora de perigo de avalanche, até chegar mais perto do glaciar, para então aí o trepar. Picos atados às solas, pau de ponta afiada na mão, subimos para o gigantesco pedaço de gelo com mais de 18 mil anos de existência. Como é imponente a natureza. Os rios que correm nestas paisagens, se são transparentes nascem nos montes, se são esbranquiçados vêm dos glaciares.

Ainda dei um passeio até ao lago Matheson, perto da cidade de Fox Glacier, percorrendo um caminho estreito e comprido por entre uma densa vegetação que roubava a luz do dia fazendo parecer não ter fim. No dia seguinte segui viagem.

Going to Nelson...

Até logo

Monday, September 10, 2007

Uma passagem por Sydney

A estada em Sydney foi curta, mas boa. Uma cidade é sempre uma cidade, pede mais dias de visita do que tantas vezes injustamente lhe dedicamos. Imagino se me perguntam quantos dias se deve ficar em Lisboa, nunca menos de 4, eu diria. Mas aqui imperou a lei das prioridades e tendo estendido o tempo em Timor, sem querer roubar muito à Nova Zelândia, esta cidade australiana foi a sacrificada.

Parti de Dili ao fim do dia, sozinha pois a Carmo ficara mais uma semana, em direcção a Darwin. Antes de qualquer bocejo ou hipótese de saciar a sede, fui submetida a uma chuva de perguntas pelos serviços de imigração para garantir que seguramente estava ali apenas, e mesmo só, de visita e não tinha qualquer intenção, nem perto disso, de trabalhar na Austrália, pois mesmo que quisesse não me iam deixar, e bla, bla, bla... Finalmente, depois de ter dito tudo e mais o que houvesse da minha pessoa, entrei na Austrália, e apenas no aeroporto de Darwin. Foram ainda umas horas de espera até embarcar para Sydney, o verdadeiro destino. Aqui cheguei bem cedo, ainda não eram 7 da manhã. Procurei pelo shuttle que me levaria a Kent St, local onde ficava a Base Backpackers. Munida apenas de uma camisolinha de algodão adivinhando o costumeiro frio dentro do avião, levei uma chapada do inverno que me bastou para procurar rapidamente um casaco de jeito. Afinal andava há quase 4 meses num verão profundo que me fez esquecer o que são temperaturas baixas. Foi a primeira coisa que fiz depois de me apoderar da cama a que tinha direito daquele quarto de quatro. Procurei um casaco. Vinha preparada para o frio, mas não para tanto inverno...

Restabelecida do choque térmico e do sono, segui em busca da cidade fantástica. Fui entrando a domar o outro choque com que me defrontei - desenvolvimento. De repente, da pacata cidade Dili, com casas não maiores que dois andares, ruas meio alcatroadas, jipes das organizações internacionais, ou táxis com mais de vinte anos numa marcha sem pressas, vejo-me numa cidade grande, prédios altos, todo o tipo de transportes, carros modernos, milhões de pessoas, lojas, restaurantes. Uma cidade moderna. Vagueei procurando cessar o espanto e realizando que não venho do campo à cidade pela segunda ou terceira vez na vida...

As atracções de Sydney são várias, mas tal como gosto de fazer quando chego a uma cidade, deambulei a pé sem destino, reconhecendo as ruas no mapa, observando em redor, percebendo a organização, pensado no que me apeteceria visitar. Subi à torre, àquela grande torre com uma vista de 360 graus sobre a cidade. O passeio por fora, sky walking, está claro que esgotara dias antes. Talvez fosse melhor assim, não tinha de perder tempo a pensar se valeria o dinheiro para a sensação de momentos… Vi a vista de dentro, que me deu uma perspectiva daquela cidade que parece lutar com o mar atirando línguas de terra à conquista de água ou as baías várias que querem vencer no continente. Este sem número de portos e cais, com a água sempre na vista dá à cidade um encanto especial.

A Opera House foi o ponto que elegi como alto. Já estava preparada para a barreira de assistir a um espectáculo nessa magnifica obra de arquitectura inspirada num descascar de uma laranja pelo próprio arquitecto que a desenhou, mas visita-la por dentro era o meu principal objectivo nesta passagem por Sydney. Tinha ido de ferry até Manly beach, uma forma de ver a cidade do mar e ainda de espreitar as praias do outro lado, durante a manhã. Pensei em fazer tempo para mais ao fim do dia, perto do por do sol contemplar a Opera por fora e depois por dentro. Desembarcámos do ferry, eu e o meu amigo libanês, senhor na casa dos 60 a gozar a reforma de mais de 30 anos de trabalho neste país, seguimos em direcção à ansiada visita. Quando nos aproximamos vejo que está fechada, preparavam um festival que iria decorrer na semana seguinte. Foi o descair do sorriso mais flagrante que vivi, mesmo sem espelho pude vê-lo. A simpática Maria, senhora que anunciava o tal espectáculo, desfez-se em alternativas para eu não ficar magoada com Sydney. Claro que não fiquei. Vi a Opera de todas as outras perspectivas possíveis, e ainda aproveitei mais um pouco a companhia do meu amigo libanês, que passeava também sozinho pois a mulher acostumara-se demais à vida caseira que sempre levara e sair não era o seu forte. Um desfrutar mutuo de companhia para vencer a solitária descoberta do bairro das antigas casas da cidade. Com tanto de pouco jeito como de boa vontade e de muita paciência tirou-me algumas fotografias com o cenário da Opera… ou desfocada, ou cortada, ou com um ferry no meio, sempre fiquei com umas fotos do ex libris de Sydney.

Até logo.

Wednesday, September 5, 2007

Saudades de Timor

Foram as 5 semanas mais rápidas de sempre. Nem o dinamismo e a diversidade dos acontecimentos atenuaram a corrida do tempo, ou talvez esses fossem a razão da sua pressa. Quando dei por mim estava a embarcar no avião em direcção a Darwin, estava a ir embora de Dili, da BELUN, de Timor. As paragens mais longas deixam mais nostalgia, tornam a partida difícil pelas quase raízes que se criam. E mais uma vez, para mim sair foi doloroso mas agora muito por culpa do trabalho. A BELUN ofereceu-me uma oportunidade quase única. Juntei-me à equipa sentido desde logo fazer parte dela como qualquer outro membro, desfrutando como qualquer um deles do companheirismo e respeito que invade toda a organização.
A oportunidade de trabalhar na BELUN foi a melhor. Rebecca recebeu-me de braços abertos, integrando-me desde logo em todo o processo. Foi um privilégio para mim poder trabalhar com Rebecca, e o incremento que isso trouxe à minha pesquisa deixou a vontade de continuar aqui, de não seguir viagem. Um mês é pouco para construir ou desenvolver seja o que for... Trabalhar com a BELUN foi produtivo, foi enriquecedor. Pude ver não só como se trabalha em equipa, mas também como é possível construir algo e caminhar no sentido do desenvolvimento de uma nação que tanto precisa de ser guiada e ajudada em direcção ao seu próprio sustento. A equipa da BELUN é constituída essencialmente por timorenses, que se dedicam a cem por cento à causa que têm em mãos. Foi muito bom conhece-los a todos e trabalhar com eles. No dia da minha saída, a despedida foi a melhor. Umas palavras de agradecimento em ambas as direcções e um presentinho típico da terra à boa maneira timorense, comoveu-me por dentro. A vontade de ficar era cada vez maior...

A vida na cidade de Dili já me era completamente familiar. As sensações de medo ao inicio desapareceram como que no nevoeiro de uma rotina que criei. Sem dar por isso já vivia totalmente habituada àquela tão diferente paz. Já fazia daquela a minha cidade. Era bem capaz de morar e Dili por uns tempos, impressão que poucos ou mesmo nenhum sitio me causou. Mesmo com a limitada mobilidade, que acabava por não ser tanta assim pelos amigos que já criara e pelo à vontade que já sentira, via-me a viver ali tranquilamente.

Venho-me embora deixando amigos, uma rotina a que me acostumei, sítios que não visitei, oportunidades que se diluíram naquela certeza de que ainda hei-de lá ir pela longa estada que me espera, e quando dou por mim o tempo acabou e a vontade de seguir não apareceu.
Mas a vida continua, assim como esta viagem. Há ainda muito para fazer na rota dos 360. Há outros locais que me esperam para a pesquisa, com visitas ou trabalho. Há lugares que nunca vi, que nunca visitei, que tanto têm para mostrar... Sigo agora para mais uma etapa com todo o empenho, não esquecendo Timor e a vontade de lá voltar...


Até logo.