Tuesday, June 26, 2007

Duas semanas em Hanoi

Não esqueço porque não posso e não esqueço porque não quero, uma razão que me arrancou para esta viagem. O objectivo está identificado, a meta está no horizonte e vou desenhando a pista como sei, como consigo e tentando beneficiar das oportunidades que tenho.


A volta ao Vietname estava então prevista no calendário. A Carmo tinha os seus compromissos profissionais do outro lado do Atlântico e eu os meus aqui, neste país da Indochina francesa. Depois de uma busca pelas ofertas da rede, Volunteers for Peace Vietnam (VfPV) foi o escolhido. Prometi-lhes em euros 15 dias e eles, entusiasmados com o propósito que me trouxe, talvez por fugir um pouco do standard, tinham trabalho de sobra para me dar, e a vontade de corresponder era muita. Não vinha através de nenhuma organização do meu país, nem de qualquer outra parceira do tipo Travel-to-Teach, o contacto com eles foi directo e a proposta que tinham para mim, depois de saberem do meu intento de querer investigar sobre a comunicação nas ONG, era no desenvolvimento da mesma e da interacção dos voluntários com promoção multicultural. Outra tarefa, e talvez a mais importante, era uma formação a um grupo de voluntários vietnamitas que irá integrar projectos no estrangeiro este verão, sendo a primeira vez que viaja além fronteiras, onde as questões das diferenças culturais seriam um dos pontos mais importantes do dia. O desafio, a obrigação, a responsabilidade, esperavam-me nestas 2 semanas. Estava cheia de força para me dedicar intensamente ao trabalho.

Longe do centro da cidade grande, onde a luta urbana corrompe o afável e genuíno povo vietnamita e esconde por vezes esta simpatia e vontade de ajudar que existe em cada um deles, encontrei na Peace house o mais genuíno instinto para com o visitante.

Mr. Bang, o segurança de título, o faz tudo de vocação, empurra-me para esta observação a todo o momento. Profere o meu nome à boa maneira vietnamita, prolongando e acentuando a última sílaba da palavra, ritaaá, quando me chama para jantar com aquele sorriso irresistível, que me faz devolver o mesmo transmitindo uma alegria imensa para experimentar mais uma iguaria deste país, esquecendo a vontade do chá e torradas porque são 6 da tarde. É o melhor amigo de todos que por aqui passam. Lança umas palavras de inglês, de vez em quando com auxílio de um pequeno livro, para não deixar que a diferença entre línguas seja bloqueio de comunicação.

A chegada no fim de semana deu para me instalar com calma, saber pormenores do ansiado trabalho e conhecer as acomodações e as normas de conduta da casa. Os quartos são de 4 pessoas, uma casa de banho por piso, e o escritório, a sala de jantar, a sala de aula e o espaço de convívio partilham o mesmo espaço. A cada voluntário estrangeiro que chega é adjudicado um vietnamita para o ajudar na integração do país, das pessoas, da cultura, da língua. Sem fugir à rega conheci a minha supporter logo no dia em que cheguei. Hang, estudante de universidade, que encontra na VfPV a oportunidade de conhecer pessoas de todo o mundo e desenvolver os seus conhecimentos de inglês, mostrou-me também a afectividade deste povo. Fez-me uma visita guiada à cidade, foi professora de conhecimentos básicos de vietnamita e desfazendo-se em sorrisos que transbordavam um imenso orgulho em poder mostrar o seu pais a estrangeiros, disponibilizava-se a todo o momento para o que fosse preciso. Não pude deixar de lhe devolver umas aulas de português, que cheia de vontade de se mostrar conhecedora do meu país, cativou-me com um “bom dia” e um “até logo” para que lhe explicasse mais e mais.

O trabalho dividiu-se nas duas semanas. Durante a primeira, na tentativa de me embrulhar na verdadeira razão de existir da VfPV impingi-me para participar e ajudar num dos workcamps da organização. A recepção à ideia foi a melhor, claro que fazia todo o sentido uma visita ao terreno para aumentar a qualidade e a fiabilidade do trabalho. Depois dos dois primeiros dias no escritório, de planeamento de actividades, de criação do National Profile, outra das iniciativas promovidas pela VfPV para o conhecimento intercultural entre os voluntários que por ali passam, estrangeiros ou nacionais, estava preparada para conhecer o campo. Foram só mas muito produtivos 3 dias a viver com locais que gentilmente cedem a sua casa para albergar os voluntários. Em frente é uma das SOS Village espelhadas pela mundo, que alberga crianças orfans, e lhes dá todos as condições para que aos 18 anos possam escolher uma vida e lançarem-se sozinhos sem medo e sem entraves. Vão à escola, têm aulas extra na vila e condições para actividades extra curriculares.
De manhã ajudamos na pintura do gradeamento da vila, para não deixar perder o simpático e arranjado aspecto desta escola interna, e a
seguir ao almoço e ao fim da tarde são as aulas de inglês. Durante os tempos livres ainda jogávamos futebol ou badmington com as crianças. Foram dias bem passados com as duas Trangs, nome bem comum no Vietname, e com Julianne e Yanne, jovens estudantes franceses, que muito de produtivo trouxeram à minha investigação pessoal, e ao trabalho a desenvolver para a organização, da maneira como partilharam a experiência.


Um dos pontos obrigatórios de visita para quem está em Hanoi, são as famosas imensas ilhas, dizem ser 3000, de pedra espalhadas pela vasta baía de Ha Long, que como conta a lenda terão sido criadas pelo desaguar do dragão das montanhas no mar… Sem companhia de algum voluntário que pudesse querer vir, fui sozinha. Inscrevi-me numas das milhares de excursões que partem todos os dias para este sítio nomeado património mundial e integrei um grupo de outros viajantes, acompanhados ou não. O programa estava feito, eram dois dias e uma noite no barco, com direito a refeições, uma hora de canoa, e banhos no mar com água a 33 graus. Tudo com horário preestabelecido. Mesmo com hora marcada até para o descanso, foram dois dias bem passados. Lembro os tempos de Elorne, daquelas férias com o Avô de porto em porto, contornado a costa portuguesa e espanhola até entrar no mediterrâneo, a adormecer ao som das irrequietas adriças, com um embalar que nos traz o sono sem darmos por isso. O grupo era animadamente heterogéneo. Trocámos feriados e formas de passar o Natal ou o significado da Páscoa e do dia de Acção de Graças. Viajámos pelo mundo à volta das gigantescas pedras, entre banhos e canoas e serão ao luar, desde da Nova Zelândia, até à rara Estónia, passando pelos Estados Unidos, e pelas já comuns Inglaterra e Holanda, onde mais uma vez Portugal aparecia pela primeira vez.


A volta foi cedo. Eram 6 da tarde, a bater no jantar, quando chego de novo à Peace House. Mais um grupo de novos voluntários chegara naquele fim de semana. Uns iriam integrar um campo no dia seguinte, outros iriam ficar a viver ali e iriam trabalhar em locais diferentes, com tarefas diferentes, também de acordo com os seus conhecimentos anteriores.

Nesta semana o principal objectivo era a formação de Sábado. Vinha aí o grupo de voluntários, cheios de expectativas e cheios de força, para saber tudo sobre viajar e trabalhar como voluntário. Também nesta semana fiquei a substituir uma voluntária dinamarquesa que tinha tirado umas férias, nas aulas de inglês. Eram às 7 da tarde, logo depois do jantar. Participava ainda nas aulas de Abby, uma das americanas do grupinho que ficou na casa, que insistia que bastava uma outra presença, ainda que calada, para lhe dar confiança. Sempre era uma ajuda para mim também pois não só aprendia mais para ensinar como preparávamos as aulas juntas e dividíamos ideias.

Entre o trabalho de todas, houve tempo para algumas saídas. Como éramos 4, facilmente partilhávamos táxi para ir à cidade. Fomos ver o acordar de Hanoi, que por influência chinesa, enche o lago de ginásticas, danças e Tai Chi. Deambulámos pelo velho quarteirão apreciando a vida da cidade, visitámos galerias de arte e ainda assistimos a um espectáculo de marionetas na água contando as várias histórias, hábitos e lendas do povo Vietnamita. Temi o pior quando começou, sem conhecer minimamente a língua, não iria perceber nada do que se ia passar, mas com a ajuda do guião com os títulos das músicas em inglês acabou por ser um espectáculo bem giro, muito fácil de perceber.

Hanoi é uma cidade confusa, mas ao mesmo tempo charmosa. No lago vive um grande ser que dizem ser parecido com um tartaruga, que traz sorte e felicidade a quem o vê. Refugia-se no pagode assente na ilha inacessível e viverá eternamente. Os vendedores nas ruas levam as suas cestas de comida, fruta ou flores, penduradas nas cordas das extremidades do pau que carregam ao ombro, vagueando para cima e para baixo, levando-nos ao mais típico cenário vietnamita, mesmo na cidade grande.

O trânsito é de fugir. A quantidade de motas que circulam na cidade é provavelmente superior à das pessoas. As regras de trânsito foram substituídas por usos e costumes que só quem cá vive saberá seguir. Andam milhões de motas numa só faixa de rodagem como se fossem 5, parecendo um carreiro de formigas na lavoura do dia a dia. A aproximação de um cruzamento não é razão suficiente para abrandar a marcha, muito menos para usar o travão, como que uma migalha que cai no dito carreiro, deixando as formigas aparentemente baralhadas e sem direcção, mas que num ponto mais à frente continuam o seu percurso como se dele nunca tivessem saído, sabendo exactamente que direcção seguir. Ver as (anárquicas) formigas a seguirem carreiro depois da confusão é muito engraçado mas ser uma delas não é para mim, sou pouco dada a sensações de limite. Quando pensei que era em Hanoi que alugava uma motinha destas para andar pela cidade, mal imaginava o treino que é preciso. São meses de aprendizagem empírica, pois não há livro que descreva este código. Confesso aqui, sem medo e sem preconceito, que mesmo o lugar do pendura me causa alguma angústia. As minhas idas à cidade ficaram limitadas à vontade das restantes, era preciso 3 pessoas para valer a pena partilhar táxi…

A formação de sábado correu bem. Todos participaram, e na parte das diferenças culturais, as americanas Abby e Soraya, a Japonesa Asuka e ainda a Filipina Ginny deram o seu contributo. Foi engraçado ver como é importante explicar a um vietnamita que a rua se atravessa quando os carros estiverem parados, não havendo a regra do ir sem olhar e sem mudar a velocidade pois as motas que se desviem… Não esperem encontrar na Europa, Estados Unidos ou mesmo Japão um tratamento especial a quem é estrangeiro, só porque o é e vê-se que é, pois a sua presença não é rara ou especial como aqui nos sentimos… Á tarde foram actividades variadas, com a presença do grupo de coreanos que tinha chegado nessa semana para ficar 10 dias a trabalhar com a Peace House, tal como estes iriam ser lá fora. Foram uma ajuda preciosa com um empenho especial.


A vontade de vir embora era apenas puxada pelo próximo passo, hábitos que criei da vida nómada que levo desde os últimos quatro meses. Mas a vontade de ficar era muita. O trabalho correu bem, foi bom, e muito produtivo para mim. Com as pessoas criei relações, amizades, vontade de manter contacto. Foram dias que por serem poucos foram intensos, e de uma forma natural pareceram meses. Não deixaram de se tirar as últimas fotos de grupo, para mais tarde recordar, e até um adeus me acompanhou até o táxi se perder de vista. Levo muito de Hanoi, da Peace House, levo essencialmente boas recordações e boas amizades.


Ate logo.

Friday, June 8, 2007

Uma viagem interminável

Eram 5 da manhã em Luang Prabang, quando tocou o despertador. Ultimar as malas e sair em busca de um rickshaw para a estação de autocarros. A hora do check in era às 6, para ter tempo de estar a rodar às 6e30. Saímos no horário dentro de mais um autocarro local onde a já tão habitual posição dos ângulos rectos tinha de ser aguentada por 9 horas, pelo menos. A viagem corria normalmente quando de repetente paramos sem perceber porquê. Não se viam as habituais bancas de rua com comes, nem qualquer sinal de nada… Alvoroço lá fora à volta de um pneu… era um furo. Apreensivas olhamos para o relógio pensando no que nos iria atrasar este percalço pois tínhamos uma segunda carreira para a apanhar com hora marcada. Mas entrou logo tudo em acção. Enquanto um sobe ao tejadilho para tirar o pneu suplente, o outro posiciona o macaco e outro já vai desaparafusando a roda. Passados mais ou menos 20 minutos, lá seguimos viagem, continuando a tempo. Voltamos a parar para a habitual ida à casa de banho e comer qualquer coisa e seguimos.

Já sem aguentar aquela posição, vou debruçada na janela a deliciar-me com as montanhas verdes e densas quando oiço um psssssssss, mesmo por baixo de mim. O autocarro abranda, pára, saem todos. Outro furo! Desta vez era a roda de dentro, mais complicado… Agora é que o tempo começa a apertar. Se isto demora muito o caldo entorna-se para o nosso lado… Depois de uma espera maior do que a anterior e sem tirar os olhos do relógio lá seguimos de novo, na esperança que nada mais aconteça. Assim foi. Chegámos a Vientiane em cima da hora para apanhar mais um tuc tuc que nos levasse à outra paragem de autocarro. Eram 4 e 45 da tarde e o check in era às 5, segundo informações de quem nos vendeu o bilhete, que também tinha escrito em Laos a morada para mostrar aos rickshaws, o que nos descansou. Chegando à agência, e não à estação, onde nos esperava um mini bus com mais quem iria na mesma viagem e comprou o bilhete à mesma pessoa, e onde esperámos mais não sei quanto tempo sem perceber porquê, percebemos que a partida era só às 7h. A informação vem sempre depois do acontecido…

Chegamos finalmente a mais um descampado a céu aberto, a estação, com uma série de camionetas arrumadas de acordo com uma ordem que não é suposta ser entendida por nós, onde nos deixam em frente ao nosso autocarro. É este? Mas venderam-nos um VIP! E isto é mais um local bus… Sem tempo para espantos vejo um dos companheiros da viagem anterior a sair do autocarro que me diz, despacha-te a entrar porque os lugares estão todos ocupados pelos locais, se não corres arriscas-te a ficar no chão. Já só sobravam os últimos onde no espaço para as pernas se estendia um enorme embrulho sei lá de quê, tirando toda a possibilidade para o segundo ângulo recto. Tiraram-nos o legs room, como dizia a inglesa que também se sentou nos bancos de trás. Foi aqui que ficámos. Arrancámos à hora marcada em direcção à fronteira. Parámos mais umas quantas vezes para as necessidades evidentes, numa das quais durante uma hora e tal, que só mais tarde percebemos que era para matar tempo por causa da hora de abertura da fronteira (então porque é que não saímos mais tarde??). Chegamos ao fim do Laos. Isto eram 7 da manhã e eu não tinha conseguido dormir quase nada, pela falta de posição e pelo imenso calor que não era atenuado pelas janelas minúsculas inibidas de nos dar corrente de ar. Sai toda a gente, carimba o passaporte de saída do país, anda até à entrada do Vietname, carimba a entrada neste, passa a mala no scanner, entra na camioneta e segue viagem. Esta brincadeira foram algumas 2 horas.

Passado já mais uma data de tempo, já depois de termos parado para almoço e troca de condutor, para que o anterior pudesse dormir um bocado, encontrando lugar apenas ao nosso lado, e quando já finalmente anestesiada da posição, conseguia dormir, levanta-se mais um alvoroço. Acordo em sobressalto. Tínhamos batido. O novo condutor nem queria parar, mas lá foi obrigado pelos acidentados que vieram logo atrás, e mais meia hora na rua debaixo de um sol insuportável e sem uma aragem sequer… Segue viagem por mais um bocado e… operação STOP! Mas mais uma vez quem nos guiava achou que não era nada com ele e seguiu… Admiração geral dentro daquele autocarro, tudo à janela, a policia vem aí… ouvem-se as sirenes, somos ultrapassados e obrigados a parar… Mais não sei quanto tempo na rua à espera. Volta a entrar no autocarro e segue viagem, mas uns metros mais à frente começamos a ver fazer inversão de marcha… Que se passa? Voltámos para trás? Entramos num portão e mandam-nos sair, estávamos na esquadra da polícia. Rusga total a todas as malas, a todo o autocarro. Encaminham-nos para uma sala, simpaticamente cedida pelos senhores policias, com uma ventoinha, chá e dizem-nos para esperar… Passaram não sei quantas horas, algumas 3. O grupo de estrangeiros daquele autocarro era como uma excursão que viaja junta há semanas. Já tínhamos assunto de conversa há muitos in(a)cidentes atrás… Há mais de 24 horas que estávamos naquela tentativa de seguir viagem… Matámos o tempo com jogos de cartas, conversas, cervejas, dormidas, etc… Chegámos a Hanoi às 11 e tal da noite, em vez de às 4 da tarde. Foram 38 horas em viagem… Nunca nenhuma tinha sido tão difícil.

Até logo.

Sunday, June 3, 2007

Luang Prabang

É muito fácil perceber porque é que Luang Prabang é a Jóia do Mekong. Com a sua maior força e corrente o rio abraça a cidade, em conjunto com o rio Nam Khan, dando-lhe aquela vida de uma costeira, fazendo-nos esquecer sentir a falta do mar. É uma cidade completa. Tem um encanto, um charme, uma áurea… algo que “não se vê daqui de fora, mas uma vez que se lá entra não se quer vir embora”… Está-se confortável, em paz, tranquilamente descansada. As casas são baixas, dois pisos. No térreo abrem-se grandes portas para a rua mostrando um restaurante, uma loja, um hotel, ou mesmo uma casa. Muitas com varanda, esplanada aproveitando o clima quente e tropical da zona. No piso de cima continua o restaurante, a loja, o hotel, ou o resto do desenvolvimento da casa. O verde intenso das montanhas, já típico do Laos, não atenua na cidade. As palmeiras abundam. O traço das águas castanhas rasgando a paisagem ao longe leva-nos um pouco ao Douro.

Passámos aqui 5 dias, em vez de 2. Mais uma vez burocracias de viagens e vistos orientaram os nossos passos. Dando graças a essa burocracia tivemos oportunidades além das visitas típicas do local. Á espera de algo, sentada num spot de rua a beber uma água fresca entro naquela conversa habitual entre viajantes, que começa com um olhar de olá, de quem já se conhece, passando rapidamente para a história da viagem, acabando muitas vezes, e foi o caso, numa tarde bem passada de troca de experiências, conhecimentos e até piadas banais. É engraçado ver esta cumplicidade entre as pessoas que estão a fazer a mesma coisa no momento, neste caso a viajar. Sente-se nesse primeiro cruzar de olhar uma empatia imediata como se soubéssemos há anos que temos algo em comum, e rapidamente a conversa flúi sem serem precisas apresentações formais.
Tantas vezes o nome só surge já a cavaqueira vai longa… Este Irlandês, acabou por ser companhia naquela tarde, numa esplanada das casas típica das colónias francesas, de jantar, de um copo. Um tipo que estudou arquitectura, mas acabou por montar negócio na arte de vidro com o qual fez fortuna. Um dia cansou-se de ser um Business Man, vendeu o que tinha e partiu em viagem. Já lá vão 3 anos, vai a casa de vez em quando, mas tem planos de continuar pelo mundo, e logo se vê onde a vida o leva. Deixa histórias dignas de livro, e muitas experiências. Delicia-se também ao ouvir as pequenas e modestas aventuras destas 2 miúdas portuguesas, as únicas pessoas deste pais que conheceu, com tanto ou mais interesse com que ouvimos as dele…

Passado o dia da chegada a repor forças e energias de longas horas em estrada, onde a paisagem nos prende o olho mais uma vez, sem descanso possível, fomos às prometidas cascatas, ponto de visita obrigatória desta segunda cidade do Laos. A sensivelmente 25 Kms do centro urbano perdem-se quedas de água com lagoas naturais de um azul que nunca achei que existisse. Que espanto!

Subimos pelo caminho no meio da densa vegetação sem conseguir decidir em que azul mergulhar, cada um melhor que o outro… Também num tuc tuc partilhado encontramos outros viajantes, com quem trocamos palavras. Uma senhora que já não vai para nova, da Austrália, viaja sozinha sem qualquer preconceito ou medo. Diz estar na sua segunda vida, satisfeita por poder aproveitar as energias que tem. Já casou, teve filhos, trabalhou, agora viaja. Continuando a percorrer até à grande catarata, vêm-se turistas e locais na mesma proporção desfrutando desta maravilha da natureza.
Também os monges, esses seguidores da religião budista, que tanta presença tem em Luang Prabang, se divertem nas quedas de água. São outro encanto desta cidade. A tranquilidade que transborda do olhar sincero destes vestidos de cor de laranja, contagia toda a cidade, dando-lhe aquela calma, aquela paz… Muitos são os templos que se podem visitar. Enterrados no verde das palmeiras, surgem as casas dos telhados sobrepostos onde vivem estes monges… esta tranquilidade senti-a no dia em que partimos. Eram 5e meia da manha e já a cidade estava cheia, com um silêncio gigantesco, as pessoas saem à rua com as suas cestas de verga com arroz e bananas e esperam pacientemente pela fila de monges que com uma mesma cesta de verga coberta com um croché da cor das vestes recolhem honestamente o que têm para lhes oferecer. Na calmaria da madrugada toda a cidade se vira para este feito. Que maravilha…

Outra maravilha são os night markets. Debaixo de grandes estruturas metálicas com lona vermelha, estendem-se tapetes no chão cobertos de uma série de produtos manufacturados, super bem arrumadinhos e bem longe do caos de uma feira. Dá gosto só de ver, mas apetece levar de tudo. Bolsinhas, colchas e fronhas, colares e pulseiras, desenhos dos monges, calças de pescador, t-shirts ou carteiras… Ao passear pelos corredores ouvimos um constante saudar em Laos Sa Ba Dee, acompanhado de um Good luck se comprarmos já, uma enorme defesa ao volto mais tarde… Algumas ruas da cidade são cortadas ao transito para que o comercio tenha lugar. Todos os dias já perto das 6 da tarde começa a montagem dos toldos. Admirando mais um inesquecível por do sol, na esplanada em frente de casa debruçada no rio, jantávamos qualquer coisa ao som da corrente, apreciando a quietação da cidade, para depois darmos uma voltinha pelo mercado. Levo esta cidade como uma das que mais me encantou até agora.


Depois destes dias muito bem passados em Luang Prabang partíamos para Hanoi. Eram duas etapas, primeiro num autocarro local até Vientiane, depois daí num VIP bus para Hanoi. Ao todo iriam ser 20 horas. Não foi bem assim…

Até logo.

Monday, May 28, 2007

Laos... que país!

É impossível resistir a este país. O menos desenvolvido e o mais enigmático de toda a Ásia, nas suas apaixonantes paisagens que não nos deixam indiferentes, as longas e maçadoras viagens são atenuadas pela vista da janela. As montanhas cobrem quase toda a sua extensão e o povo procura os vales para se estabelecer. Também ao longo deste famoso e já falado Rio Mekong, moram pescadores e montam-se famílias que procuram nas margens um cantinho fértil para se desenvolverem.

O povo, esse, é outro que tal, encantador. Sinto que me repito cada vez que falo dos vários povos dos países por onde tenho passado, principalmente dos países da Indochina, mas a verdade é que tenho sentido uma enorme empatia com todos eles. No Laos as pessoas são simples e prestativas, sem pretensões procuram ajudar-nos mesmo sem conseguir proferir uma única palavra de inglês, aterrorizam-se com a incapacidade de resposta, vão imediatamente procurar quem saiba.

Lembro um episódio numa estação de autocarro. Estamos em Pakse, uma cidade no sul, à espera do autocarro para Vientiane, onde iríamos apanhar outro autocarro para Vang Vieng, o nosso verdadeiro destino. Tínhamos estado 3 dias longe da cidade, onde levantar dinheiro ou pagar com cartão era mentira (mesmo nas cidades é difícil). Eram 2h da tarde e tínhamos ao todo 2000 Kips na carteira (9000 kips = 1 USD), a nossa camioneta, onde depois verificámos que serviam uma refeição de nudles e uma garrafa de água, era só às 8 e meia da noite e nós só com o pequeno almoço no busto. Já sabendo que não seria fácil encontrar um ATM compatível como cartão visa, perguntei à guardiã da estação de autocarros se havia um MB por perto. Disse-me que sim, a 10 minutos de tuc tuc. Eu expliquei-lhe que não tinha dinheiro para apanhar qualquer transporte, perguntei se não haveria um que desse para ir a pé. Ela voltou a dizer que só de tuc tuc. Eu insisti que para mim era impossível essa hipótese. Vendo que não me restava alternativa, se não esperar que viesse a camioneta e rapidamente adormecesse para não pensar na fome, ela sugere-me: Vais com ele (calculo que fosse o marido), na minha mota, se encontrares dinheiro pagas-me a gasolina, se não, deixa lá, também não tem importância. Lá fomos em busca de um ATM, acabando por levantar dinheiro num hotel, que ainda me cobrou uma taxa por usar a sua máquina de visa, e regresso à estação. Isto era Domingo, nem os bancos estavam abertos… Paguei-lhe a gasolina e perguntei-lhe se tinha alguma coisa para comer. Diz-me que ali não tem nada, mas que vai buscar, eu digo, não, para isso vou eu, onde é, ela diz, não, tu não sabes eu vou, eu digo, então vou contigo, ela diz, ok anda. Andámos às voltas num mercadinho atrás da estação onde bancas e bancas exibiam vegetais rigorosamente cortados e arrumados, ou frutas, ou ainda bancas que vendiam sandwichs, mas só de rã… Eu muito indecisa, sem saber bem o que comprar, ela cheia de paciência, sempre atrás de mim. Acabo por trazer pão simples e fruta.

Voltando ao país, o primeiro sítio foram as 4000 ilhas, ao sul do Laos, numa zona larga do Mekong. Vindas de táxi desde do aeroporto chegámos á estação de autocarros para apanhar um qualquer para o sul.

Isto é que é a estação de autocarros?! E qual é o nosso? Queremos ir para Muang Khong, a cidade da maior ilha das 4000. De malas às costas, a fugir das poças de lama, com o taxista à perna, a querer não se percebia bem o quê, procurávamos quem nos levar ao destino. Lá nos diz o taxista, ao fim de várias tentativas de pergunta, que o autocarro que queríamos iria passar às tantas naquela rua, e leia-se rua um qualquer espaço no meio daquela suposta estação, onde passarão umas carrinhas de caixa aberta com uma estrutura de ferro atrás que cobre os passageiros e que serve de porta bagagens, ao que chamam autocarro, e que haverá um que segue para onde queremos ir. Levou-nos no seu táxi umas metros mais à frente para escolhermos o nosso “autocarro”. É este, boa! Depois das malas lá em cima, e nós por baixo, segue caminho. Mais uma viagem tipicamente asiática, 4 horas para fazer 150 Kms, onde acontecem várias paragens em que somos bombardeados com locais a vender comes e bebes. Aqui são espetadas de baratas e grilos, ou sacos de arroz que se come que nem pão. Prefiro continuar a aceitar a fruta que os companheiros de viagem tão generosamente oferecem. Chegamos finalmente a um destino que não o premeditado, que por engano ou por desconhecimento de causa nos escapou, mas que por sugestão de outro viajante, iríamos parar ao melhor.
Daqui íamos apanhar o Ferry para a ilha de Don Det.
Sim, um barquinho rasteiro, atracado a um não cais, com motor fora de borda de 2 cavalos, isto era o nosso “Ferry”!

Tão inóspita era também a ilha em que ficámos. Nuns bungalows de madeira por cima do rio, foi onde dormimos. A electricidade acabava às 10 e meia da noite, pois o gerador desligava. Tinha internet, mas nem sempre estava ligada por causa do mau tempo e das tempestades... Nem água quente havia e a casa de banho era separada do quarto. Aqui passámos 2 dias de tranquilidade absoluta. Passeámos de bicicleta até outra ilha, para vermos as cascatas, mas que só pelo caminho tinha valido o passeio. Um por do sol que nos deixava de boca aberta, uma luz, uma calma, uma serenidade… Bem dito engano.

Depois deste selvagem paraíso seguimos para a cidade de Vang Vieng, outra maravilha… de perder de vista… Chegámos aqui depois de uma viagem de 4 horas num local bus surreal… Mas mais uma vez a paisagem deixa-nos indiferentes ao desconforto. Neste sítio passámos 3 dias entre descanso, passeios de bicicleta, banhos de rio e uma das milhões atracções que oferecem as agências de viagens locais. A escolhida foi tubing e canoagem, com direito a entrar pela gruta de água montadas numas bóias gigantes e de lanterna de mineiro da cabeça, almoço, e descida do rio de canoa, com uma paragem a meio nuns bares com música e slide para saltar para a água… paraíso dos backpackers.


A viagem de Vang Vieng para Luang Prabang, o nosso próximo destino, foi qualquer coisa de surreal… Chegámos à estação para apanhar o autocarro das 14e30. São 15 e pouco e pergunto pelo nosso, um local que passaria na estrada supostamente àquela hora. Avariou, diz-me o senhor. Agora deve passar um às 16e30. Bom, deixámos as malas dentro da casinhota e fomos de novo à cidade comer qualquer coisa. Voltámos eram 16e15. Às 17h volto a perguntar, ao que me responde que está quase. Entretanto procuro informações laterais, pergunto a outros transeuntes que aparentam estar à espera de algum autocarro, que me dizem que agora só às 8 da noite… Não queríamos acreditar. Entretanto já eram quase 6 da tarde quando aparece um autocarro e todos gritam Luang Prabang. Finalmente o nosso! Foram intermináveis horas de viagem até a esta cidade que um dia foi capital do então reino do Laos e hoje é património mundial da Unesco.


Vale a pena vir ao Laos.


Beijinhos.

Até logo

Saturday, May 19, 2007

Hello Teacher!

Mergulhada nos textos de computador no colo, no dia da chegada a Siem Riep, nem reparei que 4 concentrados e silenciosos olhos me observavam. Instantes passados a intensa atenção destas empregadas da Guest House fez-me nota-las e o meu olhar surpreso, e até talvez um pouco agressivo, perguntou-lhes que queriam.
Aprender, só queremos aprender, não te preocupes e continua…
Mas a concentração dilui-se no seu interesse e passou para o que quereriam elas assimilar dos meus textos em português, já que era inglês o seu objectivo. Explorei mais um pouco essa necessidade de aprendizagem, que me encantou desde do primeiro momento. As famílias numerosas impediram-nas de continuar os estudos, obrigando-as a procurar como ajudar no sustento dos mais novos. Há um ano que deixaram a escola, e vêem nos turistas que por ali passam uma oportunidade de não deixar escapar os conhecimentos adquiridos nesses bons velhos tempos. Acabei por também ser “caçada”. A vontade de sair dali, de encontrar melhor futuro existe. A consciência que há um mundo lá fora com melhores oportunidades é algo que lhes traz curiosidade e sede de saber. Combinámos então uma hora para o dia seguinte e a felicidade daqueles sorrisos fez-me sentir a pessoa mais útil daquele momento. Desde daí que em cada cruzar de olhares, ouvia um enorme e comovente Hello Teacher! Havia uma razão forte, uma motivação grande que me fazia querer ficar em Siem Riep mais uns dias. Nos intervalos dos textos, quando batia a 1h no relógio, já se ouvia um let’s go students e seguia-se a correria à mesa de trabalho prontas para mais uma lição. Providas de um pequeno livro de exercícios que terá sido usado por várias gerações, uma folha de papel e uma caneta, passávamos ali um par de horas, longe de tudo e de todos, aproveitando ao máximo o tempo de descanso da azafama dos pedidos, a treinar e tentar evoluir na língua estrangeira. Havia ainda um pequeno dicionário de Inlgês-Cambodjano, que, com elas, me ajudava a confirmar o soletrar das palavras. O meu não tão evoluído mas esforçadamente rigoroso inglês, com a ajuda do material, do empenho destas tão dedicadas alunas e do meu gosto por ensinar, era suficiente para ocuparmos as nossas horas de almoço e trazer algo de novo ao inglês destas jovens, e no fundo ao meu… o encanto de ensinar, ou melhor dizendo, do ajudar a aprender está no que também eu própria ganho de novo. A simpatia de Srey Nom e de Lay Siak contagiou-me, fazendo quase prometer-lhes que voltava ao Cambodja, antes de passados 3 anos, prazo que estipularam nas suas vidas para amealhar o preciso para voltar à escola.

O que mais me impressionou nestas jovens de 19 anos, foi a percepção do que a vida lhes pode trazer com um pouco mais de conhecimento. Elas sabem que o inglês é o primeiro passo para o sucesso, mas que além disso há mais para aprender, para estudar, querem apanhar o primeiro comboio para um curso, cujo bilhete é pago em inglês. Arrisco dizer que um trabalho como este, em que o contacto com estrangeiros é constante, possa ter sido um dos emissores dessa noção. A motivação é enorme, e basta um empurrãozinho de visitantes pacientes, para que estas sonhadoras consigam ter uma oportunidade de escolha, que todos merecem, que a todos desejo, como eu tive.


A despedida foi calorosa. Havia conhecimento suficiente para se desfazerem em obrigadas e no quanto tinha sido bom para elas aquelas aulas, aquela amizade. Vou contente, com nostalgia, aguardando ansiosamente noticias por aquele tão entusiasticamente trocado endereço de email.


Até logo.

Thursday, May 17, 2007

A fronteira do Cambodja

Foi passada a pé a arrastar as malas. Senti-me no tempo em que não havia estradas, nem carros, onde o único meio de transporte eram animais, ou o próprio pé… Antes do carimbo que finaliza a permissão de estada no Vietname, que nos diz que saímos mesmo deste país, apanhámos um barco, um autocarro e outra vez um barco. Eram dois dias de viagem desde Ho Chi Minh até Phnom Penh, com direito a dormida no meio e a uma visita pelo dia-a-dia do Mekong Delta. Ao princípio parecia mais do mesmo, do que já tínhamos visto na excursão anterior, mas afinal acabou por ser, tal como muito se diz por estas bandas, “same same… but different”.


Ao chegarmos ao posto fronteiriço entre os dois países, pelo quase inavegável rio que atravessa os países da Indochina desde do Tibet até ao Vietnam no Sul, esperamos pacientemente pelas burocracias legais. Comemos qualquer coisa e seguimos. Afinal estou no mundo moderno, levo a mala a passar no scaner garantindo idoneidade, recebo mais um carimbo, o que me deixa entrar no Cambodja e de novo ao barco. O scaner continua o único vestígio de modernidade aqui… o embarque é feito descendo a ladeira que quase atinge os 45º, da margem do rio, saltando para o barco que está preso apenas por um tipo que segura o cabo. Sem escorregar entro antes da mala trazida por um pequeno local estrategicamente posicionado para recolher mais uma gorjeta do turista… Ainda bem que existem! Ou já me via a nadar nas águas castanhas do Mekong sem saber da mala e do destino…

Seguimos viagem pela zona larga e de trânsito do mesmo rio, apreciando a paisagem até pisarmos terras cambojanas. O desembarcar foi tão ou mais inóspito que o anterior embarque. A ladeira declinava ainda mais, uma pequena tábua, bamba e escorregadia da lama ligava o barco a terra. Mais um salvador pequeno local encaminha a minha mala… Já só faltava uma viagem de autocarro até chegar a Phnom Penh, a capital deste tão selvagem e diferente país. A primeira impressão foi não fechar a boca. Tudo em obras. Um país que recupera de milhares de anos de guerras e invasões, e dos brutais tempos sob as regras do Kmer Rouge, que conhece a paz há escassos anos e onde até então não houve possibilidade de definição de sistema, nota-se que estás em arrumações de quem se mudou há pouco por imposição de alguma força maior. Mas o povo é simpático, afável, sem pelo na venta como o anterior. Mostra carinho e submissão querendo agradar sem ter de ser agradado.


Em Phonm Penh ficámos apenas o tempo de poder seguir para Siem Riep, a terra do Angkor Wat e seus templos construídos pelos Kmer Rouge, no século XIII. Para se visitar todos os templos são necessários 3 dias. Antiga cidade habitada pelos seguidores deste regime, que em modestas casas de madeira perdidas no meio da selva, admiravam os imensos templos de pedra onde os Deuses encontrariam um lar. Das casas de madeira não sobrou nada, foram totalmente destruídas por quem esteve no poder depois dos Kmer, que pela fúria dos mal tratos e massacres deste regime tentaram não deixar rasto do que foi o genocídio… Mas os templos, esses, desde sempre que resistem a qualquer tentativa de destruição.


A chegada a Siem Riep foi tranquila, apenas mais uma viagem de 6 horas de autocarro, com as típicas paragens em bancas de beira de estrada que nos oferecem fruta aquecida pelo sol, ou variados insectos grelhados, que eu evito por razões obvias da minha diminuta mas não inexistente esquisitice gastronómica. No fim da viagem, como num verdadeiro país da Ásia, milhões de homens de rickshaws (aqui chamados Tuc Tuc) invadem-nos com ofertas do transporte mais barato, ainda sem sequer termos um preço base. Escolhemos o mais persuasivo, que por elegermos a guest house do seu irmão nos leva de graça...

A vista aos templos no primeiro dia foi feita de bicicleta. Percorremos o circuito pequeno pela densa e bravia paisagem que a todo o momento nos pede uma fotografia, passámos pelo Angkor Thom e acabámos no grandioso Angkor Wat, um dos favoritos ao podium das maravilhas do mundo! A estação das chuvas deu-nos o templo vazio de turistas a observar o mundo pela objectiva da câmara, mas deu-nos também a maior molha de sempre na volta a casa… Para o povo asiático a chuva não é ameaça, para nós também não pôde ser…

No dia seguinte andámos 70 Kms de Tuc Tuc, mais uma vez acompanhadas por Herman e Veerle, um casal Belga que vive em viagem há largos meses que tão boa companhia e lições da cultura deste lado do mundo nos deram.

O caminho até esse longínquo templo mostra-nos mais deste inóspito país. Ao longo de toda a estrada vêem-se as casas de saias arregaçadas a prevenirem-se dos constantes e repentinos aguaceiros da época molhada, onde nos momentos secos também servem de acolhimento. Para além da beira da estrada pouco ou nada está povoado. As minas que ainda podem existir no subsolo proíbem qualquer hipótese de desbravar aquela selva… Virão em tempos próximos as brigadas anti minas? Ao mais destruído dos templos fizemos uma escalada por entre pedras e arbustos, ajudadas pelos simpáticos guardiães do nada que com o seu pobre mas sincero inglês me explicava por onde ir e ao que tirar fotografia. Here… Picture… foram as duas únicas palavras que ouvi em todo o percurso. Uma delicia pura à qual não se consegue resistir…

A nossa estada em Siem Riep derrapou 3 dias. A cidade é tranquila, o povo é simpático e a oportunidade de visita às Irmãs da caridade apareceu. Aproveitei para me dedicar à escrita, conseguindo lançar um post em tempo real e desenvolver mais textos sobre o sector das organizações sem fins lucrativos. Para o Laos vamos de avião, pois as escassas estradas do Cambodja obrigam-nos a dar uma volta de 2 dias…

Até logo!

Monday, May 14, 2007

O inesquecível Vietnam

O que faz a maravilha do um sitio é a experiência que se lá vive, e esta passagem pelo Vietnam trouxe-me vivências, sensações, experiências que me fazem ficar com o país para sempre na memória. As convivências com o povo que de pelo na venta consegue cativar e cria vontade de conhecer, e encontros com veraneantes que casualmente, mas felizmente escolhem a mesma praia, deixam-me com vontade de voltar. Assim será!
Seguindo viagem: A próxima carta do baralho da Mr. Travel era Saigão, capital do antigo Vietnam do Sul, chamada Ho Chi Minh City (HCMC) desde a unificação do país em 30 de Abril de 1975. Foi justamente nesta efeméride que chegámos… Ainda nos disseram que a possibilidade de encontrarmos sitio para ficar era remota dada a importante data que se comemorava nesse dia, mas sem alternativa seguimos o plano. O objectivo era procurar a praia algures na costa central e só depois voltar à cidade, até porque sabíamos que as nossas amigas, portuguesas em Shanghai iriam estar por aí a passar a semana de férias que o 1º de Maio dá aos chineses. Quando nos dirigíamos para a estação de comboio, onde já Nha Trang era o destino escolhido, soubemos que era justamente aí que estavam as luso-shanghainesas… Só pode ser bom, ou o guia tem comissão. Sorte a nossa!

A chegada ao prometido paraíso foi assustadora… Chovia… E a nossa praia? Veio me logo à memória “isto ainda abre” (que frase familiar…) abriu! Enquanto esperávamos pelo cessar chuva, sentámo-nos numas cadeirinhas de tamanho de criança de beira de estrada onde simpáticos vietnamitas nos acolheram com café, chá, sorrisos, e conversa. Ainda nos ajudaram no alojamento, desmistificando a preocupação do também feriado do trabalhador. Como é engraçada a simpatia deste povo no primeiro contacto. Recebem o turista, o visitante, o estrangeiro de braços abertos, com vontade de agradar para ser agradado… mas se não o é também consegue ser rude mostrando-nos como proceder… Há que aprender a lidar.

Depois do susto da chuva, encontrámo-nos com elas num dos muitos, mas talvez o melhor, bar na praia daquela cada vez menos pequena cidade turística de Nha Trang. Atrás de uma alameda de palmeiras que ladeia a marginal, esconde-se uma praia paradisíaca… ou assim a cognominei pelo anseio de banhos de mar há tempos... Mas era de facto paradisíaca. Entre lagosta fresca grelhada para almoço, ou águas de coco a meio da tarde, passávamos os dias desfrutando do verão e da companhia…
Mais paraíso ainda foi o destino seguinte. A companhia estava óptima e seguia para sul.
As 6h horas de viagem, alongadas pelo total desconhecimento do taxista de onde nos deixar, mas não tão intermináveis assim pela animação instalada, levaram-nos a Mui Né. Numa estrada que se diz aldeia, onde resorts variados a separam do mar, encontrámos finalmente o nosso... Enterrado na densa vegetação verde, um corredor entre quartos e bungalows guia-nos até uma piscina que desagua no mar. Que maravilha… fiquei deslumbrada a olhar a praia… Estava num sitio que sempre achei estar longe do meu alcance…

Entre mais águas de coco e divertidas canastas, com uns passeios de canoa no mar, ou um passeio de bicicleta ao encontro da actividade piscatória de Mui Né, passámos ali dias estupendos. O descanso do sol e da praia renovaram-me a alma… O casual (ou não) encontro com estas amigas, a Ana, a Barbara, a Madalena e a Maria, que nos receberam nas suas férias com uma naturalidade genuína, foi um dos responsáveis por esta nova bagagem que trago na mala.

Depois do merecido ou ansiado, mas aproveitado descanso seguíamos para Ho Chi Minh, cidade que desde do dia da chegada me tinha ficado no goto… Casas baixinhas, várias cores, muito verde, e milhões de motas que dominam o trânsito. Mas a ida não foi seguida. Deixámos a praia com um dia de sobra para ainda em tão boa companhia percorrermos os braços do enorme delta do rio Mekong. Protegidas como os locais do sol e da chuva, seguimos no barco rasteiro a voltinha das provas, entrámos pelos vários canais para desfrutar das iguarias que preparam para o turista. Rebuçados de coco ou ananás, fruta fresca, chá ou whisky ao som de musica típica, foi o que nos ofereceram. Além dos recursos naturais da zona, o turismo é umas das principais fontes de riqueza da gente do Mekong.

Na cidade de Ho Chi Minh, passámos ainda uma bela tarde de canastas e conversas antes do regresso delas a Shanghai. A nossa estada iria durar o tempo necessário para tratar da próxima paragem… Vistos e afins teriam de ser providenciados. Mas logo na primeira de milhões de agências de viagens daquela rua percebemos que são imensas as formas de ir para o Cambodja, e que o visto é comprado na fronteira, e tudo é tratado por eles. Marcámos partida para daí a 3 dias, e procurámos um pouco mais da cidade. Como qualquer uma asiática, Saigão não foge è regra da desordem. Atravessar a rua é de olhos fechados, as passadeiras são apenas riscos brancos no chão, e os sinais de trânsito são meros enfeites. As motas são o que de melhor tem esta cidade, dessas a 4 tempos, com mudanças automáticas, põe com a ponta do pé, tira com o calcanhar, onde a velocidade não é muita, mas também não é precisa, podem ser alugadas em qualquer esquina. Experimentámos apenas a pendura, como táxi, pois o conselho foi que neste trânsito só os locais…
Mas a volta ao Vietnam vai acontecer. Depois de percorremos o Cambodja e o Laos, voltaremos a entrar no país para descobrir as maravilhas do norte. Na cidade de Hanoi veremos se não alugo uma motinha…

Até logo.